Talvez você, leitor, faça parte do contingente que já não suporta mais ouvir ou ler nada a respeito das próximas eleições. Há motivos. Escrever sobre isso também não é simples. Porém, perder o momento, deixando de provocar reflexões, pode ser irresponsabilidade, tamanho é o grau da despolitização no País. Precisamos ter compromisso com as gerações vindouras. Por isso, com sua licença. Começo lembrando o poeta barroco Gregório de Mattos, conhecido em sua época (1636-1695) como Boca do Inferno. Motivo: ele estabelecia críticas ao poderio político/econômico da Bahia, à Igreja Católica e à sociedade em geral. Poucos escapavam de sua língua; e com razão! Gregório, além de ter sido filho de senhor de engenho em plena crise econômica (o Brasil não conseguia competir com os preços do açúcar das Antilhas), era também bacharel. Logo, compreendia bem a farsa das instituições. Como poeta culto, se via num meio iletrado. A literatura era praticada por juristas, sacerdotes e burocratas. A maioria fazia a defesa do sistema colonial. De sua privilegiada situação, sobre os governantes da época, Gregório dissera em antológico soneto o que segue: A cada canto um grande conselheiro,// que nos quer governar cabana e vinha,// Não sabem governar sua cozinha,// e podem (ou querem) governar o mundo inteiro. Em outro soneto Triste Bahia é exposta a degradação daquele Estado. No texto de Gregório, a Bahia é responsabilizada pelo empobrecimento de sua família, redundando em versos como os da primeira estrofe: Triste Bahia! Ó quão dessemelhante (diferente)// Estás e estou do nosso antigo estado!// Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado,// Rica de vi eu já, tu a mi abundante. Tudo e todos estavam num estado de perdas. Desses fragmentos, duas críticas podem ser depuradas: a) incompetência dos políticos da época; b) empobrecimento do povo. Mal sabia o poeta tratando de algo tão localizado num tempo e espaço que seus textos teriam perenidade, que seriam atuais. Agravante: hoje, o empobrecimento intelectual do povo brasileiro parece ser mais trágico do que o econômico, que ao contrário do que tentam passar não é pouco. Detalhe: o Brasil deixou de ser colônia em 1822! A atualidade a que me refiro acima pode ser comprovada no desfile deplorável de candidatos que aparecem nas propagandas políticas, inclusive dos que almejam à presidência. A começar pelo desastroso uso da língua padrão, tudo é de estarrecer, de entristecer. Quanto simulacro de democracia. Em minha leitura, nenhum pode governar bem sua própria cozinha, e nesse caso particular nem mesmo as mulheres, mas um deles governará o Brasil. Triste Brasil! E o que dizer da maioria dos candidatos às assembleias, Câmara Federal e ao Senado? Emudeço diante do que vejo. Custa-me crer que seja verdade. Quanta gente de ficha suja e cara de pau! Quanta gente bizarra! Dos bizarros, um deles, que também é palhaço, é apenas o mais famoso; poderá ser o mais votado em São Paulo. Por cá, também temos bizarros à beça. Pior: o bizarro e a sujeira não fazem um povo crescer. Que sina! A elite econômica, infiltrada nos mais importantes partidos, principalmente após a eleição do atual Presidente, regala-se, usando gente do povo, usando o grotesco para manter seus interesses. Impressionante. É urgente ampla reforma mental e política no Brasil. É mister garantir espaço de representação aos cidadãos independentes, àqueles que não cabem em nenhum partido político; aliás, quase todos corrompidos. Experiências de outros países podem nos ajudar. Sei que isso pode não garantir o banimento do bizarro, da falta de ética, mas poderá ser uma tentativa. Como está, não dá. Com o mínimo de consciência e informação pressupostos ao voto responsável , está cada vez mais difícil (para não dizer impossível) votar em alguém ou num partido. Pior: o voto ainda é obrigatório. É a democracia da obrigação! É muito erro. Só não nos é permitido desistir dessa luta, afinal a colonial mentality persiste. É preciso superá-la. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
[email protected]