ARTIGO
Terça-feira, 20 de Março de 2012, 22h:11
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Traseiro e honra
Países de cultura cristã conhecem bem o binômio siglar a.C. (antes de Cristo) e d.C. (depois de Cristo). O Brasil (BR) não foge à regra. Uma das primeiras ações dos exploradores portugueses foi rezar missa aos índios. Naquele ato imortalizado na Carta de Caminha e, depois, na pintura de Vitor Meireles (1832/1903) , consolidava-se um dos discursos fundadores que moveriam a parti dali a Terra de Vera/Santa Cruz. Hoje, revivemos no BR um clima de a.C e d.C. Porém, o antigo C corresponde agora ao C da Copa. Uma vez definida essa terra de tantas cruzes como a sede desse bendito evento, vivemos um momento de um país que é obrigado a se ver como atrasado antes da Copa (a.C) e outro que se projeta ultramoderno depois da Copa (d.C.). Portanto, sugiro que passemos a perceber nossa história da seguinte forma: Brasil a.C.; Brasil d.C. Afinal, por cá, futebol é um tipo de religião. A Copa é a coroação do fanatismo. Pois bem! Hoje, comento a visita do presidente da Fifa, Mister Blatter (o tratamento sr. é frágil para sua força planetária), que se reuniu com alguns políticos aborígines. Todos de joelho, inclusive a presidente, prometeram ao deus do futebol mundial cumprir as promessas já feitas. Ajoelhou, tem que rezar... Consoante à Folha on line (17/03), o clima era de crise antes da visita de Blatter, e por isso mesmo foi marcada pela troca de elogios explícitos e mimos. Ôpa! De mimos, entendemos bem. Lembram-se dos espelhos e outras quinquilharias dados aos nativos pelos primeiros exploradores? A estratégia de estrangeiros (chamados de Brichote possivelmente British na obra de Gregório de Matos) nos ludibriar está recolocada em nossa história de abestados, vocábulo bem usado na obra de Tiririca... Continua a Folha: Blatter esperou os fotógrafos adentrarem à sala para presentear Dilma com uma fotografia de um encontro entre os dois e o ex-jogador Pelé... Além disso, o Mister rasgou de elogios o BR. Afinal, a reunião, mais do que acertar polêmicas e problemas específicos, tinha como objetivo acenar que não há mais crise entre Fifa e Brasil. Crise? Por que haveria? Só porque o secretário-geral da Fifa Jérôme Valke dissera que o BR precisava de um chute no traseiro? Isso! O erro do Monsieur foi pensar em maltratar nosso traseiro; ou melhor: nossa bunda. Se ele dissesse que precisaríamos levar um tapa na cara, tudo bem. Estamos acostumados. Mas chutar nosso traseiro?! Ah, não! Nosso traseiro é valoroso; aliás, bem mais do que nossa cara pálida. Por isso, durante a Copa, poderíamos fazer uma campanha internacional, parodiando o slogan de uma propaganda petista: nossa bunda, nossa honra. Isso dá até hit de funk, com subidas e descidas, num remelexo até o chão... Voltando aos elogios de Blatter: eles eram protocolares até o cartola da Fifa falar que o ministro Aldo Rebelo era a pessoa mais importante nessa jornada". Para a Folha, o afago não foi por acaso. Partiu do ministro a articulação contra o acordo firmado entre deputados (inclusive os religiosos) para tirar a liberação de bebida (alcoólica) na Copa, como forma de garantir o compromisso com a Fifa... Mui belo, cacique Rebelo! Agora, mire-se em seu pedacinho de espelho! Comunista pós-moderno é isso aí: libera geral. No mais, o álcool, desde o cauim, já está impregnado em nossa cultura... Detalhe: com futebol e álcool na cabeça, não o que não se esqueça... The end: o Brasil a.C. e d.C. já é um país derrotado ética e moralmente, mesmo que a Seleção seja a campeã. A Fifa está ganhando tudo no tapetão. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP e prof. Literatura/UFMT