ARTIGO
Quarta-feira, 26 de Março de 2014, 21h:19
A
A
BENEDITO PEDRO DORILEO
Teatro da cidade
São decorridas mais de 7 décadas, quando Júlio Müller, na solidão do Centro- Oeste, construiu a avenida Getúlio Vargas em Cuiabá, levantando edifícios ao longo dela, desde o Grande Hotel (atual secretaria de cultura), o Cine Teatro Cuiabá, os demais prédios públicos até atingir o majestoso Colégio Estadual de Mato Grosso (Liceu Cuiabano). Plantou as sedes administrativas na capital sempre ameaçada de transferência, ou de divisão do Estado. Imprimiu o caráter resistente da alma cuiabana. Antes, os cuiabanos, possuíram a Sociedade Dramática Amor à Arte de 1877, organizada pelo comendador Henrique José Vieira. Nos últimos anos da segunda grande guerra, o Cineteatro ofereceu vigoroso meio de comunicação, cultura e lazer, com notícias filmadas e peças teatrais que interpretavam a angústia mundial. Assistiam-se aqui aos mesmos filmes e shows artísticos, como os famosos sapateados de Hollywood, vistos pelos soldados em linha de batalha. Como auditório, a Rádio a Voz dOeste utilizava-o para o maior programa de calouros do Estado indiviso, na década de 1950, com o Domingo Festivo na Cidade Verde. No piso superior, abrigou o salão de chá, o Centro Artístico Musical e a Associação Mato-Grossense de Estudantes. A sua inauguração, em 1942, foi marcada pelos artistas amadores da cidade, com Zulmira Canavarros, a egéria cuiabana, dirigindo a peça Cala a Boca, Etelvina, comédia de Armando Gonzaga da Silva. Seguiram as peças Rosas de Todo Ano, de Júlio Dantas; Ai, seu Melo, revista de Oduvaldo Viana; Cuiabá em Revista, com Franklin Cassiano, e outras. Zulmira foi ovacionada em 1952, ocasião do Primeiro Congresso Eucarístico, no episcopado de Dom Aquino Corrêa, quando na direção de A Feia, de Paulo de Faria Magalhães. O Cineteatro é nosso marco de cultura e deve ser otimizado para uso (ficou fechado por muito tempo). Procópio Ferreira veio e elogiou o trabalho dos atores cuiabanos e vaticinou que Cuiabá, povo sensível e culto, logo conquistará novas casas de espetáculos. Não foi bem o que aconteceu, somente com o advento da UFMT em 1970 foi possível, na gestão inicial do reitor Gabriel Novis Neves, a construção do Teatro Universitário, inaugurado no campus, em 1982. Mais uma vez, superando dificuldades, o projeto foi aprovado para edificar-se um auditório da Biblioteca Central foi a versão burocrática oficial. Entretanto, construiu-se o teatro na concepção hodierna com todos os requisitos de acústica, palco profissional, proscênio, camarins, iluminação e mais. Profissionais do nível de Aldo Calvo, italiano, responsável pela cenotécnica, reformador do teatro de Milão ou da construção do teatro de Brasília, e o polonês Igor Sresnewski, responsável pela acústica, compuseram o corpo de especialistas para a sua edificação. Este cuidou de reduzir de 700 para 510 poltronas a favor do benefício acústico. O foyer possui decoração projetada por Fernando Pace, que atuou ao lado de Sresnewski na técnica do ruído desse salão. Passa atualmente por reforma, na gestão da reitora Maria Lúcia Cavalli Neder. Depois de anos, a predição de Ferreira vem ocorrendo, mas se afirmará consolidada com a construção do Teatro da Cidade. Compondo os grandes projetos para a celebração dos 300 anos de Cuiabá, esta Casa de espetáculos poderá abrigar temporadas de peças memoráveis, ou de programações musicais de fôlego nacional e internacional. Assistamos, por exemplo, à apresentação da Orquestra Sinfônica de São Paulo, quiçá a da Filarmônica de Berlim, (ou a da sua de Câmara) e a das nossas orquestras. Ser providente, instalar o planejamento agora, cinco anos antes. Para os 400 anos de São Luiz, ocorreu com seis anos antecipados. Chamar à existência esta obra implica em apoio do poder público, governo, legisladores, políticos, universitários, e ainda empresas; bem como das instituições de cultura, classes artísticas em todos os setores, do ator ao pintor, do músico ao beletrista, que podem aquecer os tons animadores da iniciativa, podendo levantar recursos financeiros alternativos com promoções inteligentes. Verdade é que a sociedade necessita de formar árbitros da elegância do pensamento cidadão. Artes cênicas encerram minas do saber, como reflexo das necessidades sociais. Seja o palco do Teatro da Cidade a tribuna do ano jubilar de 2019, o símbolo de cultura do tricentenário de Cuiabá. *BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e ex-reitor da UFMT