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ARTIGO
Quinta-feira, 03 de Janeiro de 2013, 20h:52

STÁFANIE MEDEIROS

Sensacionalista

Ultimamente, esta palavra tem sido praticamente sinônimo de jornalista. Pelo menos é o que meus colegas de outras profissões acham. E os familiares. Em resumo, muitas pessoas acham que o trabalho do jornalista é pegar um fato irrelevante e torná-lo sensacional e rentável, um produto a ser vendido. E para ser sincera, no começo achei que isso fosse uma péssima característica dos jornais, que em suas manchetes e títulos exageravam o acontecimento. Isso até eu estar por trás das manchetes, vendo, ouvindo, sentindo e escrevendo o drama de muitas situações. E então pensei: talvez sensacionalismo não seja de sensacional, mas de explorar as sensações. Mas claro que tudo tem que ter um limite. Porém, vamos para exemplos: há uma mulher de quem eu nunca vou me esquecer, às vezes eu ainda tenho pesadelos com ela. O nome da matéria era “Corrida pelo trabalho” e foi publicada pelo Diário em outubro do ano passado. Quando cheguei à redação, estava um senhor que não sabia ler nem escrever, mas tinha uma história pra contar sobre pessoas que se aproveitaram dessa situação. Mas quem era mesmo o “ponto mais fraco” era a mulher dele, que neste dia estava no hospital amputando três dedos da mão. A história é a seguinte: ela, Ana do Carmo, trabalhava junto com o marido em uma Associação. Mas, segundo seus patrões, ela não era contratada e não recebia salário ou nenhum outro benefício. Pra resumir, ela trabalhava com produtos químicos sem proteção. Foi picada por uma abelha um dia, descobriu que tinha diabetes e acabou perdendo parte do movimento, tendo que amputar os dedos. Como transmitir uma história dessas sem explorar as sensações? Se eu chorei, por que o leitor não pode encontrar na matéria os aspectos que me fizeram chorar, como, por exemplo, o semblante triste de Ana, o fato de que ela tentou se matar, o choro por não conseguir mais cuidar dos quatro filhos, um deles com apenas alguns meses de vida? O mundo é sensacional e cheio de sensações. O ordinário pode ficar a cargo do poeta, mas as emoções também são da área do jornalismo. E são as matérias assim que valem a pena ler. Contudo, como temos que mostrar sempre os dois lados, vamos dar um exemplo do que seria exagero. “A mulher de um homem é brutalmente assassinada por um serial killer e o filho dele fica com deficiência física por conta do incidente. E num reviravolta dos eventos, o filho é sequestrado e o homem tem que perseguir os sequestradores por milhares de quilômetros com a ajuda de uma mulher com deficiência mental”. Quando percebemos que isso é uma descrição do filme infantil “Procurando Nemo”, dá pra perceber que fomos longe demais. STÁFANIE MEDEIROS é repórter

Edição EDIÇÃO 16966




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