ARTIGO
Quinta-feira, 10 de Maio de 2012, 22h:07
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LORENZO FALCÃO
Sei lá Mangueira
Cuiabá, terra de luz e de sol forte. De cores várias que estão em frutas como o caju, a banana e a manga. Ah... a manga que remete às sombras indevassáveis e necessárias neste lugar tão quente. Uma cidade com tantas mangueiras e uma tradição secular, bem que merecia ser lembrada e projetada mundialmente. Mas... não sei se toda a beleza de que lhes falo, sai tão somente do meu coração. De repente, um boato vira notícia. A Estação Primeira, a Mangueira, escola de samba arrebatadora, acerta com a prefeitura de Cuiabá. A capital de Mato Grosso será o enredo da escola no carnaval carioca de 2013. Visto assim do alto, mais parece um céu no chão. Parece perfeito. No ano que antecede a Copa de 2014, quando Cuiabá será uma das sedes do mega evento, a cidade é homenageada num dos maiores espetáculos do mundo, transmitido pra 170 países. Um marketing planejado, estratégia ideal para catapultar Cuiabá. Quem sabe a população cuiabana até esquece que a cidade é uma das mais violentas do Brasil e que também figura entre as que mais apresentam problemas administrativos e estruturais. Esses problemas, têm vezes, os olhos não conseguem perceber, as mãos não ousam tocar e os pés recusam pisar. Onze e quinze da manhã na segundona braba. Estou na Avenida das Torres, artéria crucial cuiabana e reparo que a beleza do lugar, pra se entender, tem que se achar que a vida não é só isso que se vê. É um pouco mais. O sol tá de rachar e pego carona na sombra do puxadinho de uma quitanda bem simples. Eu fiz esse telhadinho mesmo é pra isso. Bem aqui do lado tem um ponto de ônibus sem cobertura e tinha gente que ficava esperando duas horas no sol, até chegar o ônibus. E começa a descer a lenha na má administração da cidade, coisa que não é de hoje. Com razão. Claro que minha língua começa a coçar. Aqueles ônibus com ar condicionado que tinha, tiraram tudo, prossegue ele. E diz que essa história de transporte coletivo em Cuiabá é tudo esquema de políticos e poderosos. Ele abandona a conversa e vai atender a freguesia. Ainda não sabia eu naquela hora do dia da confirmação de que Cuiabá enredaria a Mangueira. Se soubesse, lógico que teria pedido a opinião do quitandeiro. E teríamos conversa pra mais de metro. E o papo seria quilométrico se entrássemos nas alas da saúde pública, da segurança, da educação, do saneamento, do meio ambiente etc. Mas, pois é. São 3,6 milhões de reais que os poderes públicos (1,6 mi) e a iniciativa privada (2 mi) terão que desembolsar pra bancar o desfile da verde e rosa. O resto do orçamento, que não sabemos de quanto se trata, a Escola providencia. E o que nos toca é tentar adivinhar como Cuiabá, cantada na Sapucaí, vai repercutir junto ao povo mais sofrido cuiabano... num jeito novo da gente viver, de pensar, de sonhar, de sofrer. Sei lá, não sei. Sei lá, não sei não. A Mangueira é tão grande, que nem cabe explicação. LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado