Por uma hora, assisti boquiaberto a um documentário espetacular apresentado pela Globo News sobre o gênio de Pau Grande, chamado Mané Garrincha. Para os jovens que pouco sabem sobre esse fenômeno, Pau Grande é a cidade situada no Estado do Rio de Janeiro onde Garrincha nasceu. Depoimentos de Afonsinho, um craque que compunha o meio de campo do Botafogo, e de Amarildo, o Possesso, gravado no gramado de General Severiano, fez todos que, como eu, são apaixonados por futebol, viverem momentos de emoção lembrando as alegrias que aquele timaço do Botafogo dava ao povo brasileiro todas as vezes que entrava em campo. Gravações com Garrincha na sua terra natal, confessando com a simplicidade que sempre lhe foi peculiar, que faltava aos treinos do Botafogo para pescar e tomar cachaça com groselha, faz a gente imaginar que um atleta que fazia isto, para chegar à seleção brasileira, tinha que jogar uma bola redonda. Isto tudo na época dos super craques, um tempo em que cabeças de bagre de hoje nem poderiam treinar na seleção. Amarildo confirmava que João Saldanha (técnico do Botafogo) perguntava a toda hora antes do treino: cadê o Mané, ainda não chegou? Mal sabia ele que o Mané, nesse momento, encontrava-se com seus amigos de infância pescando a beira de um lago ou caçando passarinho. Aqueles que tiveram a oportunidade de vê-lo jogar confirmam o que Afonsinho e Amarildo disseram no documentário. O Mané só tinha três tipos de dribles, e todos, absolutamente todos, que tiveram o desprazer de marcá-lo, tomavam um baile. Sabiam o que ele poderia fazer, só que suas habilidades impediam que seus marcadores se apoderassem da bola. Segundo seus colegas, Mané não conseguia guardar o nome de muitos de seus marcadores. Antes do jogo dirigia-se a eles e perguntava: Qual é o João que vai me marcar hoje?. Para ele, todos seus marcadores eram Joãos, bordão que imperou por muito tempo no futebol brasileiro quando se referia a um lateral esquerdo que não conseguia marcar o ponta direita adversário. Falavam Afonsinho e Amarildo, e parecia que eu estava vendo o Botafogo dar seu show no Maracanã. Mané Garrincha foi embora muito cedo. Viveu numa época em que jogador de futebol ainda era considerado boleiro. Uma pena que os jovens de hoje, acostumados a ver Roque Júnior, Maicon, Josué, e os Obinas da vida, não tiveram a oportunidade de ver os shows e a alegria que Mané proporcionava a todos nós. Uma juventude que chega ao absurdo de comparar o futebol de Rivelino com o de Carlos Tevez, ou mesmo achar que este último joga mais que o primeiro. Rivelino sobrava! O caráter do Amarildo reconhecendo publicamente que foi Garrincha o responsável por sua ida para a Seleção Brasileira, e mais, que se não fosse o Mané sua atuação na estupenda equipe do Botafogo não teria o mesmo brilho que teve, é de se elogiar. Em compensação, parece que essa parceria entre o Mané e o Possesso, trouxe muitas alegrias ao povo brasileiro. Praticamente os dois foram os responsáveis pela nossa vitória sobre a Espanha na copa de 1962, abrindo o caminho para o bi-campeonato. Dia 19 de dezembro de 1973, uma quarta feira, enquanto o Maracanã encontrava-se lotado para a despedida do fenômeno (este sim, foi), passava eu dentro de um táxi, levando minha esposa a um hospital da Tijuca onde momentos depois, nascia meu primeiro filho. Motivo pelo qual eu não estava lá dentro homenageando um dos maiores jogadores, se não o maior, do planeta. Hoje, modestamente o faço. * EDUARDO PÓVOAS é cuiabano
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