ARTIGO
Quarta-feira, 18 de Agosto de 2010, 19h:55
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DHIEGO MAIA
Reflexões sobre a infância perdida
Li nesses dias em um jornal de circulação nacional que a sociedade não está dando espaço para as crianças exercerem seu poder criativo, o lúdico. Simplificando, as crianças estão cada vez menos crianças e já envolvidas no mundo do crime. A barriga que deveria estar cheia de guloseimas, se avoluma com outra vida, grande parte, em decorrência de abusos sexuais de todo tipo. Os maus-tratos na infância preenchem as capas de jornais. Crianças ainda são vendidas como qualquer objeto. Pasmem vocês, aqui mesmo, em Mato Grosso uma pequena mato-grossense quase foi parar no Ceará como moeda de troca. Onde está o erro? Nas instituições de proteção que insistem em dizer que o Brasil possui a melhor legislação a frente até de outras nações desenvolvidas, ou no seio familiar, que vive momentos de crise por rupturas de valores e modelos? Apontar erros não é a solução do problema. Queria eu que as instituições de proteção e as famílias andassem de braços dados. Seríamos melhores. Lembram-se da menina que ficou presa com 26 homens no Pará? Depois de três anos do ocorrido, entre fugas, prostituição e drogas, a hoje jovem, anda de um Estado a outro em busca de recuperação e, talvez, de uma vida digna que nunca teve. Aliás, ela nunca teve família. Quando lembro a minha infância, a nostalgia não para de bater a porta. Com oito anos, subia com facilidade uma mangueira em segundos, imaginava uma fazenda e organizava com gravetos de madeira e montes de areia, toda a estrutura da unidade rural. Enclausuradas em quatro paredes em frente a um computador, as crianças de hoje não têm experimentado o sabor dos relacionamentos interpessoais e os conflitos gerados por eles, pelo simples fato de não poderem atravessar muros afora por conta da sensação de violência, que invade o imaginário social das grandes cidades. Crianças que não experimentam a terra, o pé no chão com riscos de contrair aqueles bichinhos entre os dedos são frágeis e inaptas de enfrentar os riscos do mundo que não perdoa erros no futuro. Repare daqui pra frente as entrevistas dos grandes atletas. O segredo do pódio não está na força física. Eles creditam a vitória na base que receberam quando ainda precisavam do colo das mães e na segurança e poder de decisão do pai. Sinto saudades, aliás, dos meus. Já se foram há tanto tempo, mas continuam de certa forma vivos. Diante de tanta dignidade, respeito e transparência que deixaram, não consigo nem pensar na possibilidade de errar, de estragar a memória da Edna e do Dejalmo. Antes de qualquer coisa, precisamos da família e, por fim, de Deus que na ausência dos meus pais assumiu com toda maestria o cuidado que só eles podiam dar. *DHIEGO MAIA é repórter