ARTIGO
Sábado, 10 de Dezembro de 2011, 12h:43
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GUSTAVO OLIVEIRA
Produção nº 1.512
O mais acurado retrato jornalístico já escrito sobre Hollywood tem mais de 50 anos e é considerado a pedra angular do "novo jornalismo" - estilo criado por redatores americanos a partir dos anos 1950, que lançavam mão de recursos característicos da literatura ficcional em seus textos. A série de reportagens Produção nº 1.512 foi redigida pela repórter Lillian Ross e publicada em cinco edições da revista The New Yorker, entre maio e junho de 1952. O título referia-se ao número com que a Metro Goldwyn-Mayer catalogou o projeto de A glória de um covarde, filme dirigido por John Huston em 1951, a partir de um romance sobre a Guerra Civil americana (1861-1865). Volume integrante da coleção Jornalismo literário, editada pela Companhia das Letras, Filme (312 páginas, R$ 45, em média, tradução de Pedro Maia Soares) narra de maneira substantiva todos os passos da produção de um longa-metragem na indústria cinematográfica americana - da confecção do roteiro ao lançamento. Convidada por Huston, então um dos nomes em ascensão na Metro, Lillian acompanhou durante um ano e meio a rodagem e posterior carreira nos cinemas do filme inspirado no livro O emblema rubro da coragem, de Stephen Crane. A ideia de voltar seu olhar minucioso e rigoroso para a transposição cinematográfica de um clássico da literatura americana empolgou Lillian Ross - à época, uma jovem repórter que começava a se destacar pela memória prodigiosa, capaz de reproduzir fidedignamente extensos diálogos sem a ajuda de anotações ou gravador, e pela prosa econômica e essencial. Defensora de um jeito de trabalhar já definido como "mosca na parede" - permanecendo como observadora atenta do ambiente e das pessoas, evitando interferir nos fatos ou interagir com os personagens, a fim de deixar o clima propício a revelações importantes -, Lillian redigiu o que viu e ouviu nos bastidores de A glória de um covarde no formato que é considerado a primeira reportagem escrita como um romance. Se a escolha de uma produção de médio porte para escrutinar a fábrica de sonhos de Hollywood atendia a um propósito predeterminado - a análise de um filme-padrão permitiria em tese uma aproximação mais exata da realidade cotidiana dessa indústria -, Lillian não poderia imaginar o quão mais vertical ficaria seu relato a partir dos rumos que A glória de um covarde tomou. Estrelado por Audie Murphy (o ator foi o soldado mais condecorado na II Guerra), o longa teve uma produção conturbada, virando cabo-de-guerra entre os chefões da Metro: o produtor Dore Schary defendia o filme, antagonizando-se com o todo-poderoso Louis B. Mayer, que não queria bancar a rodagem. Remontado diversas vezes, lançado sem muito alarde e com um desempenho fraco nas bilheterias, A glória de um covarde virou um filme cujas ambições estéticas foram frustradas, tornando-se mais célebre pela lenda em torno de sua feitura e pela reportagem de Lillian do que pela versão que chegou aos cinemas. (A glória de um covarde está disponível em DVD no Brasil, em edição da Warner e vez ou outra pode ser visto no canal TCM ou Telecine Cult.) Parcimoniosa nos adjetivos e avessa a emitir opiniões explícitas ("Você nunca deve se arrogar o direito de dizer o que o personagem está pensando ou sentindo", recomendava Lillian a Truman Capote antes de o colega escrever o antológico romance jornalístico A sangue frio), a autora traçou minuciosamente o verdadeiro caminho do cinema em Hollywood. E até hoje é assim: os filmes nascem na cabeça de artistas como John Huston, iluminadas pelo sol da Califórnia - mas só crescem se os anônimos homens do dinheiro, entocados em seus escritórios escuros em Nova York, quiserem que eles vivam. * Gustavo Oliveira é diretor de Redação do Diário.