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ARTIGO
Segunda-feira, 26 de Março de 2012, 21h:37

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Presos na tela

Há pouco tive de ser firme com uma colega em uma reunião de trabalho. Como, mais uma vez, eu me opunha a outro desastroso programa governamental para a já falida educação, fui rotulado de ser “sempre do contra”. Aquela postura preconceituosa da colega – e por isso vazia de conteúdo – dentro de uma universidade me irritou. Respirei fundo... Respondi que minha postura sustentava-se em leituras acerca da questão; que eu sabia o porquê estava me opondo. Aliás, a ignorância política nas universidades – por falta de leituras – é preocupante e tem o seguinte significado: desdém a quem nos paga para pensar o próprio país. Por que estou dizendo isso? Por que, resguardadas pontualidades, me oponho ao conteúdo da revista Veja, que é um dos principais veículos fomentadores e sustentadores das políticas neoliberais no Brasil. Mesmo (cons)ciente dessa postura política do outro – aliás, por isso –, é preciso evitar, principalmente na academia, atitudes preconcebidas. Assim, li e apreciei – não sem reservas – o artigo “A tecnologia não nos salvará (por enquanto)” de Gustavo Ioschpe (Ed. de 21/03, p. 100-1), que se considera “um entusiasta das novas tecnologias”. Seu artigo surgiu em função de o MEC pretender distribuir hardwares nas escolas e querer equipar salas com lousas digitais e outras coisas. Ioschpe, sabendo que o MEC vê a tecnologia como “a bola da vez” para soluções rápidas de problemas estruturais, afirma que “praticamente toda a pesquisa sobre o assunto... mostra que não há relação entre a presença de computadores na escola e o aprendizado do aluno”. Ao final do texto, depois de ponderar sobre a educação a distância e redes sociais, o autor conclui pertinentemente que “o melhor software em educação continua sendo, disparado, o cérebro de um bom professor”. O grande senão que vejo em seu artigo está marcado já nos parênteses da locução adverbial no título. O “(por enquanto)” é desdobrado e explicitado no penúltimo parágrafo do texto. Ei-lo: “O fracasso da tecnologia em sala de aula, vinte anos depois do seu início, não quer dizer que ela não possa trazer resultados no futuro. Há consenso de que inserir elementos tecnológicos usando o mesmo currículo e com a mesma pedagogia — como normalmente são desenhados esses programas — é desperdício”. Heureca! Aqui está a “chave” – aliás, (re)batida – do autor e da revista: mudanças curriculares e pedagógicas. Como já foi dito em outros momentos por aqueles sujeitos sociais, suas apostas para a educação caminham a um ensino pragmático, ou seja, que responda rápido aos interesses da roda que faz girar o mercado. Na verdade, essa é a grande preocupação do patronato: encontrar trabalhadores (ludibriados como colaboradores) com o mínimo de condições de usar o cérebro. De minha parte, continuo vendo a necessidade de uma educação que, antes, garanta a capacidade de um ser humano se reconhecer como tal e ver no outro um outro ser humano. Em outras palavras, nem a tecnologia, nem mudanças curriculares e pedagógicas garantem ou garantirão isso. Infelizmente, os cérebros da maioria das novas gerações estão sendo preenchidos de forma e saberes estranhos, tanto ao mercado quanto ao processo de humanização do ser. Mas o que nos garantiria humanos? Simples: a capacidade de (re)conhecer e a sensibilidade para apreciar o acúmulo dos antepassados. É preciso fazer que o aluno conheça e encante-se, p. ex., com uma equação matemática, um descobrimento científico, uma antiga ou uma nova obra arquitetônica, uma pintura, uma obra literária... Se não... *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP e prof. de Literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16963




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