ARTIGO
Terça-feira, 30 de Abril de 2013, 21h:12
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ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ
Prendam os bebês
Hoje, opino sobre a maioridade penal. Tenho considerações que ainda não foram suficientemente expostas. O tema voltou à tona diante de sucessivos crimes cometidos por menores. O estopim foi a morte da dentista queimada viva; aliás, esse tipo de crime inominável não é novidade. Lembram-se do pataxó? Dos mendigos que já viraram cinzas? Tentando fugir do senso comum e evitando cair no antagonismo simplista do favor ou contra , começo relatando o que vi durante minha caminhada no domingo passado. De longe, vi um grupo de doze crianças e adolescentes (meninos entre nove e quinze anos, no máximo), ziguezagueando com suas bicicletas em direção contrária a minha. À medida que se aproximavam, sem que eu sequer fosse notado por eles, eu podia ouvi-los cantar, em coro, os seguintes versos: Vamu se juntar, gente// Vamu cume todas novinha// Vamu cume// Vamu cume. Era um funk: ritmo musical de batidas repetitivas e que subtrai a ênfase da melodia e da harmonia. Em geral, o funk se baseia apenas em um acorde. Por isso soa monótono a quem aprendeu a apreciar ricos acordes de ritmos variados. Mais um detalhe: a música que os meninos da bike cantavam era da linha proibidão do funk; ou seja, era da linhagem da putaria brasileira. Portanto, algo proibido para menores. Mas se é proibido, por que cantavam aquilo e, certamente, cantam coisas piores alhures? Porque esse é o repertório cultural que eles detêm. Logo, quando cantam, expressam sentimentos. A demonstração de suposta virilidade, mesmo que precoce, e a apologia à violência fazem parte de tais sentimentos da maioria de nossas crianças, adolescentes e jovens. Portanto, chegamos ao X do problema; e sua origem está no nascedouro do Brasil. Às camadas populares, o acesso à educação e a participação dos bens culturais de qualidade nunca existiu. Durante o período colonial, o povo sempre ficou à margem de bens simbólicos educação e cultura de qualidade. No tempo do Rei, o tempo era do Rei; quando muito, de seus próximos. Na República, a res nunca foi pública. No Estado Novo, inspirado no fascismo e no salazarismo, a novidade era o autoritarismo varguista. Durante o período do golpe de 64, o MEC compactou um acordo com o United States Agency for Internacitonal Development (USAID). Aquele acordo projetava um atrofiamento mental de nossas futuras gerações. O que era ruim ficou pior. Como? Das várias estratégias, destaco a exclusão de disciplinas do currículo escolar, como Filosofia, Latim e Educação Política; sem contar a diminuição do tempo de aulas de História e Literatura. E o que isso tem a ver com os crimes de menores? Tudo. Tais matérias, além de enobrecer nossos cérebros, nos preenchiam de sensibilidade. Elas nos humanizavam. Elas completavam as lições cheias de ética de nossos avós e pais. O crime não era para qualquer um; era só para os casos patológicos. Hoje, ao contrário, temos potencialmente uma turba cada vez mais violenta pronta para o crime. A exceção é não cometer nenhum delito, pois, do pós-64 até agora nada foi resgatado. Assim, estamos produzindo gerações descomprometidas com a caminhada da humanidade. Quando nos descomprometemos com esse percurso, nada tem valor; muito menos a vida do outro. Colhe-se o que planta. Ninguém está a salvo. E quem paga por tanta perda? Só o infrator? Bem, podemos até reduzir a maioridade para 16, ou 15 anos, como quer o Sen. Álvaro Dias, mas isso resolverá? Não. Logo, já podemos ir pensando na redução ano após anos, até prendermos os bebês ainda no útero materno... *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP; e prof. Literatura/UFMT