NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Junho de 2026

ARTIGO
Segunda-feira, 30 de Novembro de 2015, 20h:09

PEDRO NETO

Polícia e sociedade: Uma armadilha criada pelo Estado

Pedra 90, Voluntários da Pátria, Nova Esperança, Jd. Industriário, Pascoal Ramos, Loteamento São Paulo, Cinturão Verde, Sampaio e vários outros pequenos “loteamentos” formam e compõe a região do Grande Pedra 90 em Cuiabá. Esta região possui o maior número de bocas de fumo do Estado de Mato Grosso, sendo que, de acordo com dados dos próprios policiais que atuam na região as bocas de fumo podem chegar ao incrível número de 300 (trezentas). Com esta constatação, percebemos facilmente o motivo da região ser considerada também a mais violenta do estado. Mortes acontecem diariamente, sendo que as vítimas são uma camada da sociedade identificada como “sociedade dos três P’s”: Preto e Pobre da Periferia Por outro lado, nenhuma ação governamental que surta efeito de fato é desenvolvida para mudar esta triste realidade. Não existe sensação de segurança, pois a estrutura oferecida à comunidade beira ao ridículo. Para atender uma população de aproximadamente 100.000 (cem mil) habitantes há apenas 03 (três) viaturas e aproximadamente 35 (trinta e cinco) policiais que se revezam em turnos. Estes números revelam uma realidade assustadora. A sociedade vive um problema sério, ou seja, uma armadilha criada pelo próprio Estado que teoricamente existe para protegê-la. Como o Estado não dá condições e estrutura adequada à polícia que deveria proteger a sociedade, o que acontece na realidade é uma guerra entre polícia e comunidade. Neste contexto, os policiais para se imporem e sobreviverem a esta guerra, utilizam a estratégia da prática de uma violência desenfreada, invadindo escolas, casas, estabelecimentos comerciais, batendo, torturando e incriminando indiscriminadamente tanto contraventores, delinquentes e bandidos, como cidadãos de bem, ricos ou pobres, seja empresários, estudantes, trabalhadores, adolescentes, jovens, idosos, pais e mães de família. Como a corda sempre arrebenta para o lado do mais fraco e em nome da “fé-pública” e das “denúncias anônimas”, a polícia age de forma vil, acusando e prendendo quem lhes interessa. Não se vê nos noticiários casos de arrombamento, invasão de residências, truculência e tortura em bairros nobres da capital. Nestes locais, a polícia não se utiliza do instituto das denúncias anônimas para alcançar seus objetivos, só adentram nas casas das pessoas se conseguirem mandados de busca. Na grande região do Pedra 90 como as pessoas não tem a quem recorrer, a polícia deita e rola, faz e acontece da forma e como querem. Por outro lado, os moradores da região vivem uma vida de terror, sempre acuados e humilhados e reféns de um poder público inoperante. Tanto polícia quanto os moradores da região sofrem com esta armadilha posta e criada pelo aparelho estatal. Se por um lado as pessoas sofrem com a atuação da polícia, os policiais também sofrem por não conseguirem desenvolver um trabalho digno e respeitoso. Para enfrentar esta dura realidade, muitos policiais fazem uso de drogas e do álcool e sofrem da mesma humilhação e depressão que vive a sociedade. Precisamos ficar atentos e vigilantes. Conseguir perceber esta armadilha posta é dever e obrigação de todos para conseguir mudar tal realidade. Nenhuma criança nasce, com intuito de ser, bandido como também, nenhum policial ingressa nas forças armadas para o ser. A realidade está transformando as pessoas de bem e colocando-as umas contra as outras. Não adianta o alto comando da Secretaria de Segurança Pública mandar uma vez por mês uma carreata de viaturas percorrerem as ruas dos bairros citados. Não adianta mandar um helicóptero aterrissar em uma praça. Estas ações não resolvem o problema, não dão e nunca darão sensação de segurança à população. Não adianta ainda, o governo tentar se utilizar dos CONSEGS (Conselhos de Segurança) para promover ações de prevenção, como cinema na praça e pipoca para tentar criar uma sensação de segurança. A população não se deixa enganar mais com tais programas. Atividades culturais, artísticas, esportes e laser devem ser promovidas por secretarias próprias. O governo não pode tentar manipular e utilizar-se dos Conselhos acreditando que seus membros e participantes pregarão à sociedade uma segurança e presença do Estado que não existe. Sabemos das promessas de investimentos do novo governo para a região, porém, enquanto não chegam (se chegarem) os novos concursados, viaturas, motos, bicicletas, coletes, armamentos, a nova sede da polícia militar e civil precisamos de atitudes enérgicas, emergenciais e eficazes para resolver o problema da violência e da morte dos nossos jovens. Se a região do grande Pedra 90 é a mais delicada e precisa de um olhar especial, há que se emprestarem homens e estruturas de outras regiões para que seja feita uma força tarefa que atuará visando assim a diminuição da violência e dos atritos entre polícia e sociedade. Após um período de trabalho e reestabelecida a ordem, devolve-se aos poucos às suas origens, os homens e estruturas emprestadas à região. Uma universidade, um centro de ensino tecnológico, reformas e reestruturação das escolas, uma sede da defensoria pública também são estruturas que devem ser oferecidas em curto prazo, casando assim policiamento com educação. Percebemos que o problema é enorme e precisamos, que todos os poderes constituídos, juntamente com a sociedade civil organizada abrace a causa e a região, para que a população e policia vivam com o mínimo de dignidade, pois esta é uma garantia esculpida em nossa Constituição federal. *PEDRO NETO é advogado atua na região. [email protected]

Edição EDIÇÃO 16963




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL