ARTIGO
Sábado, 01 de Março de 2014, 13h:17
A
A
EDER CAMPOS MAIA
Passaram-se 30 anos
Passaram-se 30 anos! No entanto, falasse-me alguém que aqueles fatos tivessem ocorridos anteontem, ficaria em dúvida, tal a nitidez com que os acontecimentos daqueles dias insistem em manter-se preservados em minha lembrança. Saí da Central do Brasil com os mesmos passos apressados com que ele aparece nas imagens, a mesma indisfarçável vontade de juntar-se à multidão e também clamar por direitos. No caso dele, vagos e incertos, meros pretextos para incitar a balbúrdia. Já eu, misturei-me à multidão gritando por um particular direito, que havia sido arrancado da população pela ditadura militar instalada no país à época. O entorno pouco mudou, a Avenida Presidente Vargas continua a mesma. A grande diferença no cenário é que, naquele dia, foi montado um gigantesco palanque próximo à Igreja da Candelária. Tinha eu, naquele tempo, a mesma idade dele, a mesma impetuosidade. Ao contrário dele, não fiquei limitado aos arredores da Central, andei muito, fui da Avenida Rio Branco à Praça Onze diversas vezes. Fazia-me bem ver o povo na rua reivindicando. Anônimos, individualmente ou em grupos, com faixas, bandeiras, gritando palavras de ordem que até hoje ressoam em meus ouvidos. Também naquela ocasião havia partidos políticos infiltrados na manifestação, mas eram tolerados. Confesso que nutria grande simpatia por um deles que, à época, parecia-me diferente dos demais. As semelhanças entre os fatos daquele tempo, dos quais fui partícipe, e os de hoje, quando ele se tornou notícia, encerram-se aí. Eu parei e fiquei em respeitoso silêncio, como de resto toda a multidão, para ouvir Sobral Pinto. Ele preferiu juntar-se a baderneiros e desocupados, cuja presença ali tinha o específico fim de promover a desordem e a depredação do patrimônio. Nós, naquele dia, sentíamos orgulho em mostrar a cara. Desnudávamos nossa face para expressar claramente e sem receio de sermos identificados o clamor que carregávamos no peito. Ele e seus comparsas esconderam os rostos com máscaras, não queriam correr o risco de ter suas identidades descobertas e passíveis de punição, conscientes que estavam da bestialidade dos atos que ali praticavam. Nós fomos para a manifestação às nossas próprias expensas. Recordo apenas que os trens foram liberados após o início, para que todos voltassem para casa, o que fizeram de forma pacífica ao término. Não tenho notícias de distribuição em surdina de dinheiro, água, alimentos, bandeiras ou apetrechos diversos (talvez alguns sindicatos o tenham feito). Ele e os seus, vi na imprensa, podem ter recebido dinheiro, o jeton da maldade. Não é crível que tamanha quantidade de paus, pedras, rojões, sprays de tinta, marretas e outras armas de destruição tenha sido reunida na hora, de improviso. Mais lógico acreditar que existe uma logística envolvida, treinada, ensaiada, que atua em todas as manifestações municiando os vândalos, sugerindo a existência de fontes de financiamento, com orientação ideológica suspeita. Achava eu, 30 anos atrás, que a juventude era alienada. Acho hoje que toda a sociedade se alienou, dada a tão insignificante repercussão que as manifestações parecem ter causado no âmago das pessoas. A resignação de setores importantes, formadores de consciências, me faz sentir calafrios. Infelizmente, a parte boa das manifestações populares não fizeram eco nos gabinetes. O que restará para ser contado daqui a 30 anos? Talvez algum Black bloc escreva sua versão dos acontecimentos, tal qual faço hoje. Em tempo, 30 anos atrás, precisamente em 10 de Abril de 1984, estive no comício da Candelária, gritando a plenos pulmões um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos eleger o Presidente do Brasil. Ele, dia desses, acendeu o rojão que matou o cinegrafista Santiago. Passaram-se 30 anos! *EDER CAMPOS MAIA cidadão brasileiro