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ARTIGO
Sábado, 12 de Dezembro de 2009, 16h:32

MÁRIO M. DE ALMEIDA

Os elos da impunidade

Cenas filmadas de grupos de vândalos transformando um lazer, o que era para ser uma diversão – emocionante sim, mas não violenta - como o futebol em um campo de batalha, com mortes, ferimentos em pessoas e a destruição de patrimônio público e privado, aterrorizando os estádios e as ruas, vão se tornando uma rotina macabra no Brasil. Infelizmente! Mete medo na gente e causa indignação profunda, especialmente nas pessoas de índole pacífica – a grande maioria da população, graças a Deus - em cujas cabeças não entram o fato aberrante de que torcer para esse ou aquele time, necessariamente leve a que se mate, fira e trucide aqueles outros torcedores que não tenham a mesma simpatia e preferência. Não será preciso dizer - pois todas as pessoas de bem disso têm consciência - que se reveste de satanismo e crueldade considerar que os “outros” do lado de lá das arquibancadas, também amantes do futebol, são inimigos só porque não vestem a mesma camisa. E como tais devem ser massacrados. Até o sangue jorrar em função da pancadaria e, não raramente, tiros de armas de fogo. Pensar e, pior, agir dessa maneira contraria todo e qualquer conceito de humanidade, inclusive a filosofia moderna que deveria nortear o sentimento de competição desportiva, pelo qual é preciso ter uma mente sadia em um corpo são. Ao menos esse é o espírito que move as Olimpíadas. Sangue vertendo nas arenas, remete a Roma antiga e suas práticas perversas, onde aos condutores de bigas não bastava apenas vencer a corrida, mas, se possível, melhor seria competir até a morte, para satisfazer os torcedores que se dividiam entre verdes e azuis. Mesmo assim, naqueles tempos supostamente bárbaros, os fanáticos por uma dessas escuderias não travavam lutas ou promoviam quebra-quebras entre si, conforme ocorre hoje entre torcedores adversários e, muitas vezes, entre integrantes da mesma torcida do time de futebol. À falta de “inimigos” para combater, dão vazão à sua ira e sede de violência, brigando entre eles próprios. No que se igualam a certos bichos selvagens. Já o populacho que lotava as arenas romanas, bem mais civilizado do que muitos freqüentadores dos estádios de hoje, se limitava a torcer pelo “time” de sua preferência. Dependendo da modalidade da disputa, uma hora batiam palmas ao leão que devorava sua vítima, noutras ocasiões tinham orgasmo quando o gladiador da sua preferência, impiedosamente degolava seu oponente. O que somente o fazia, atendendo ao sinal negativo de milhares de dedos polegares. Sobre esses atos de vandalismo que acontecem como sub-produto do futebol, se debruçam educadores e uma vasta gama dos ditos analistas, mas, via de regra, todos convergem para um ponto em comum: é a certeza da impunidade o grande motor da violência das torcidas e, por um viés de extensão maldosa, da criminalidade à solta e crescente neste país. Desde os maloqueiros travestidos de torcida organizada e que barbarizam os estádios e as ruas durante e após os jogos, aos bandidos que furtam, roubam, estupram e cometem assaltos, até chegar aos políticos corruptos e empresários desonestos e sonegadores, existe a unir toda essa corja os elos da impunidade. E essa corrente parece estar cada vez mais forte. Haja vista as cenas deploráveis patrocinadas pelos marginais incrustados feito bernes nas torcidas do Coritiba, no Paraná, do Flamengo, no Rio de Janeiro, e aquelas outras cenas igualmente lamentáveis protagonizadas por aqueles outros marginais do governo do Distrito Federal. São casos aparentemente diferentes, mas têm algo em comum a motivá-los: a certeza da impunidade! * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do jornal e site Página Única. www.paginaunica.com.br

Edição EDIÇÃO 16967




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