Alguns indivíduos envolvidos na propina do Democratas (DEM) em Brasília protagonizaram uma cena histórica: logo após embolsarem sua cota parte em mais um ato desonroso de apropriação de dinheiro público acharam a conveniência de se unirem em uma redentora oração. Essa cena veiculada nos noticiários mostrou como um grupo de saqueadores com seus atos sem virtudes tentam através de um rito sacro despistar a natureza de suas vigarices. A verdade é que os atores cômicos libertinos primeiro provocam risos, depois indignação. Passado o momento macabro - que os comparsas tentam abençoar é que prestamos atenção no conjunto da obra, qual seja, mais um esquema de desvio de dinheiro público no qual se conhece seu modus-operandi, seus mentores, seus coadjuvantes e a soma milionária que gastaram para financiar seus panetones, que feitas as contas, sobram alguns carros de troco. Será possível que os trapaceiros esperam de fato uma dádiva por essa maldição (corrupção passiva)? Os irmãos abraçados cuja única fé deve ser na impunidade nos apresentaram uma grande novidade - ao menos em cadeia nacional que foi evocar a comiseração divina para dissimular seus prováveis pecados. O episódio está envolto em mistérios. A razão é simples: a oração, para aqueles que crêem (e são muitos) é como se representasse um fio que une a criação ao criador. Há muitos males à espreita, e a oração tem sido usada de tantas formas que é quase impossível fazer uma lista exaustiva. Mas com certeza ninguém estranharia o agradecimento a um posto de trabalho, a uma sensível melhora na saúde ou a realização de um projeto pessoal baseado no mérito. Esse caso em particular colocou em evidência um comportamento no mínimo patológico: deveria uma entidade divina ouvir a prece daqueles que descumprem regras morais e jurídicas a todas impostas? Como compreender o propósito de pessoas que usam uma liturgia associada à benignidade e à grandeza espiritual para manifestar o prazer com um ato degenerado? Infelizmente corruptos e corruptores tem infectado a administração pública. Essa parceria tem dado certo. Reuniões secretas, jantares elegantes, esquemas licitatórios e sistemas de controles medievais têm permitido que essas tramas esterilizem riqueza coletiva e se converta em benefício privado. Enquanto nossas leis não forem sérias o suficiente para investigar e punir haverá motivo para usar os dispositivos do Código Penal e Civil que tanto tem servido aos advogados e seus clientes, mas, contribuído muito pouco para edificar a nação. Como é de amplo conhecimento, as leis para as modalidades de crimes contra o patrimônio público são quase todas de mentira, a não ser que desconheçamos quanto foi ressarcido ao erário de toda a soma já estimada de fraudes. Será que os velhacos terão suas patifarias e mentiras esquecidas e suplantadas por outras que estão por vir? Talvez tenham sim, mas certamente por motivos mais terrenos. * PAULO CÉZAR DE SOUZA é gestor governamental e Mestre em Economia pela UFMT
[email protected]