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ARTIGO
Quinta-feira, 26 de Março de 2009, 20h:49

EDUARDO PÓVOAS

O que já tivemos (II)

Agora que, com a ajuda do amigo “Totó”, já sabemos quantas usinas operavam de Barão de Melgaço até Cuiabá e quais produtos eram fabricados por elas, vamos ver como esses produtos chegavam até a nossa capital e eram transportados até a cidade de Corumbá. Nessa época, a navegação no Rio Cuiabá e no Paraguai era dominada pelas empresas Miguéis, Scaff Gatass e Kassar. Esta última, dos irmãos Salim Kassar, José Kassar, Elias Kassar, Jorge Kassar, Alfredo Kassar e a única irmã Julieta Kassar. As mais fortes no transporte eram a Miguéis e a Gatass, a Kassar fazia, além do transporte de passageiros, o comércio de cargas. Através das embarcações, Rio Cuiabá, Rio Taquari, Ipiranga, Cáceres, Cidade de Corumbá, Guaporé, Agachi, Iguatemi, Cabexi, Rio Teji, Jório, Independência e Pan Americana, os produtos das usinas chegavam até o comércio cuiabano e corumbaense. Estes barcos eram “mistos”, transportavam passageiros e cargas. A Independência, a Flechas e a Elba, faziam o transporte na nossa região, sem descer para Corumbá. A Aurora, de propriedade dos Miguéis, vinha de Corumbá com carga, e pelo seu tamanho, conduzia pouco passageiro. A Filosofina também trazia produtos de Corumbá para a capital. A Santo Antonio, de propriedade da família Miguéis, e a Itajaí, também vinham de Corumbá. Traziam de Corumbá alguns produtos para serem vendidos aos ribeirinhos e para nossa cidade. Fala meu amigo Antonio Rosa com muita saudade de uma bolacha feita em Corumbá que os pantaneiros apelidaram de “bosta de burro”, por ter mais ou menos esse formato (diziam eles!). Havia dois tipos da bolacha, um salgado e um adocicado, que era a preferida da gurizada. As tripulações das lanchas tinham para seu consumo uma quantidade enorme dessas bolachas, e ao subir o rio costumava atirá-las na água para a gurizada, que de canoa corria para apanhá-las. Aqui em Cuiabá as que sobravam eram vendidas. Vinha também nestas embarcações um refrigerante a base de mate, fabricado em Corumbá, que em nada ficava a dever as marcas famosas de hoje. Este sim, tive o prazer de tomar por diversas vezes aqui em Cuiabá, e em uma viagem com meu pai e minha mãe a Corumbá, fiz questão absoluta de conhecer a fábrica e lá tomar outro. Realmente, quem teve a oportunidade de degustá-lo sabe que tenho razão. Tive a oportunidade de, com meu pai e meu irmão, embarcarmos na Agachi aqui em Cuiabá, descer o rio Cuiabá, entrarmos no rio Paraguai até o porto da “Cidade Branca”, a bela Corumbá. Esta embarcação, segundo informações do meu amigo pantaneiro, foi a pique abaixo da ilha Camargo Correa, e por incrível que pareça, ele sabe que dentro dela havia mais ou menos cem sacos de cimento. Por volta de 1960, entra nesse mercado a Bacia do Prata, empresa grande que foi silenciosamente sufocando as pequenas até o desaparecimento de todas. Depoimentos como este, feitos por quem foi personagem da história, deveriam estar arquivados nos anais que guardam a nossa cultura. Garanto-lhes que seria um dinheiro muito melhor aplicado do que financiar muitas bobagens que hoje se veem por aí. * EDUARDO PÓVOAS é cuiabano [email protected]

Edição EDIÇÃO 16966




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