NA HORA
O jornal de Mato Grosso Facebook Facebook twitter youtube

Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ARTIGO
Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011, 21h:10

RENÊ DIÓZ

O que é ter convicção

Anselmo, “o Bárbaro”, é um amigo meu da época de terceirão e um dos caras mais socialmente corajosos que conheço hoje. Explico os termos. A julgar só pela aparência, até que o rude epíteto entre aspas faria sentido. A quase dois metros do chão, Anselmo, negro, sustenta um black power responsa sobre uma ossatura de estivador. Ele já foi de perambular de preto por bares sinistros da cidade, em shows de rock do capeta e atuou ensangüentado num filme de zumbis. À primeira vista, ele me disse outro dia, muitos de fato esperam mesmo que ele seja pelo menos um sujeito bruto, mas desde o fim de 2010 Anselmão leva orgulhoso no braço uma inesperada tatuagem: “Mais amor, por favor”. As palavras grafadas em tinta preta seriam mais uma tatuagem, às vezes escondida sob uma camiseta, não fosse o conteúdo meigamente inusitado. “Noventa e cinco por cento [das pessoas] acham gay. Os outros 5% gostam ou procuram entender o sentido da tatuagem entrando numa conversa comigo”, comenta Anselmo sobre a reação negativa das pessoas, que revela o quanto ainda há de preconceito e padrões tolos de comportamento mesmo na cachola de quem diz ter a cabeça tão aberta. Como eu, que inicialmente debochei, mas calei minha boca diante de um discurso vindo de um cara tão seguro de que não havia o menor mal em levar para sempre no braço algumas palavras positivas. E haveria mesmo algo de errado nisso? Contra todo o sarro que possam tirar, mas sem almejar abrir uma nova Era de Aquário ou coisa tamanha que o valha, ele conta que a idéia foi usar uma frase já pichada em muros de São Paulo para propagar pelo corpo uma mensagem de amor, numa época em que as pessoas o banalizam. “Outra intenção é mostrar que, apesar de ser um cara grande, para alguns um ‘ogro’, você pode tatuar algo sobre o amor. O que eu mais quero é fazer as pessoas pensarem”. Tudo bem que, entre as próximas tatuagens que Anselmo pretende fazer, uma seria uma mulher nua, mas esta primeira, “Mais amor, por favor” é a mais corajosa. Discurso cafona? Meigo demais? Ele não tá nem aí. E faz pensar se qualquer um seria macho o suficiente para colocar para sempre na pele algo que os outros usariam justamente para tirar sarro. Essas coisas a princípio tolas do dia-a-dia, como um amigo que faz uma mera tatuagem, se cavadas a fundo falam mesmo mais do que se imagina sobre os padrões que a gente usa às vezes sem pensar. Sem temor do que pensariam, numa mesa de bar em que eu e outros o sabatinavam, Anselmão deu uma aula sobre o que é ter convicção e de até deu sinal verde para eu escrever sobre ele, citar seu nome. E, do deboche, passei a admirar a conduta do “Bárbaro” por conta de um gesto aparentemente simples. RENÊ DIÓZ é repórter

Edição EDIÇÃO 16965




ENQUETE
Você acredita que a Ferrovia Vicente Vuolo vai chegar a Cuiabá?
Sim. Seria uma questão de tempo. E de interesse.
Não. A Rumo já sinalizou que não é uma prioridade
Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
PARCIAL