ARTIGO
Quinta-feira, 03 de Abril de 2008, 21h:40
A
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NATACHA WOGEL
O olhar da inocência
Não há nada na vida que me encha mais de prazer do que olhar para os doces olhos da minha filha Isadora, de 5 anos (quase lá). Ela acorda com um ar de felicidade e, ainda cheia de preguiça, fala bom, dia! e vem me dar aquele beijo. Tudo passa a valer a pena nessa hora, quando esqueço o cansaço das tarefas já realizadas no dia e todo o trabalho que ainda vem pela frente. Olhar nos olhos de minha princesa e enxergar toda sua doçura e ingenuidade renovam em mim a crença de que a vida é ainda cheia de beleza. Acho que não suportaria acordar com a idéia de que, seja lá por qual motivo, ela não está mais entre nós. A simples possibilidade de não vê-la acordada quando chego à noite do trabalho me angustia, por não saber como se passou seu dia, as peripécias que protagonizou na escola, as frases bombásticas que lançou. Enfim, minha vida não teria o menor sentido sem ela. A tarefa profissional que desempenho me traz diariamente o contato com atrocidades vivenciadas por crianças em todo país. A freqüência com que atos de extrema violência contra menores ocorrem, sobretudo em Mato Grosso, me assusta. Todo dia tomo conhecimento de pais, tios, padrastos, madrastas, mães, vizinhos e desconhecidos que abusam, violentam, maltratam, ferem, no sentido pleno da palavra, filhos, filhas, vizinhos e crianças desconhecidas. Quando leio ou ouço as histórias de estupro, ferimento a ferro quente, ameaça à faca, estrangulamento, espancamento até a morte, entre tantos outros atos de violência extrema que adultos são capazes de cometer contra menores, vem automaticamente à minha mente a imagem do rosto de cada uma delas, a súplica pelo fim do sofrimento em seus olhos. Lembro-me, na hora, do olhar de minha filha, tão doce, tão inocente. Não consigo, portanto, entender a frieza com que pessoas adultas, com superficial aparência de sensatez, conseguem empreender algum ato de crueldade diante de olhos infantis, em geral muito doces e inocentes. A notícia do caso da menina Isabella, de 5 anos, morta ao ser jogada do sexto andar do prédio onde mora seu pai, em São Paulo, me choca a cada leitura que faço sobre os fatos. Não pela suspeita de que o pai ou a madrasta tenha cometido o crime, mas pela crueldade de qualquer que tenha sido a alma deste mundo que cometeu esse ato. Imagino o pavor no olhar desta menina no momento exato em que caía da altura daquele prédio e me lembro dos doces olhos de minha filha. NATACHA WOGEL é editora de Cidades do Diário