ARTIGO
Terça-feira, 21 de Agosto de 2012, 21h:45
A
A
GABRIEL NOVIS NEVES
O Enem e as cotas
Fui procurado por um jornalista para conversarmos sobre os dois assuntos do momento: o Enem e as cotas nas universidades. A grande mídia não tem tido espaço para uma ampla discussão sobre nossos mais sérios problemas educacionais, devido à agenda cada vez mais cheia de escândalos públicos. Dizem os entendidos que a cada semana um ministro será 'homenageado' pela VEJA. Como são quase quarenta ministros, temos uma novela de boa duração. O favorito para uma explicação sobre o que se passa com a educação brasileira, com o ensino superior em greve há mais de noventa dias, o Enem, as cotas e a péssima qualidade da nossa educação pública, é o novo Ministro da Educação. Com relação ao Enem existe um fator que a nossa cultura popular tem a solução ideal: Numa casa de caboclo, um é pouco, dois é bom e três é demais. Anular três provas sucessivas do Enem é demais! Novos rumos precisam ser tomados. Em um país onde os resultados das eleições para presidente da República são conhecidos após quatro horas do início da apuração, é inaceitável a anulação nacional ou regional, de uma simples prova do Enem. Não há motivos justificáveis para esse procedimento extremo, a não ser por desconfiança de corrupção. Quando esse mal contamina a educação, o prognóstico de uma sociedade mais justa com oportunidades para todos, fica distante da esperança da nossa gente. Um bom ensino fundamental e médio, com avaliação feita pela própria escola, automaticamente acabaria com o vestibular ou Enem. Na universidade, os alunos que não atingissem as metas do conhecimento, seriam eliminados do sistema, e aproveitados, com dignidade, no mercado de trabalho não universitário. O trajeto educacional seria a educação infantil, ensino fundamental, médio e o ingresso na universidade. Esse modelo um dia já funcionou no Brasil, e foi abandonado por falta de investimentos na educação. Como consequência, temos professores com excesso de carga horária, desmotivados e com pouca ou nenhuma oportunidade de atualização. Escolas com espaço físico inadequado ao ensino, onde faltam laboratórios, bibliotecas, museus, auditórios, quadras poliesportivas e locais para atividades de recuperação de aprendizagem. Como o governo não investe em educação básica e continua priorizando a criação de faculdades de medicina, direito e engenharia, inventaram essas avaliações tipo Enem para acesso na universidade, que é um lugar proibitivo para a maioria dos jovens brasileiros. E a qualidade do nosso ensino, em todos os níveis, cada vez piora. É uma vergonha a colocação do Brasil no ranking mundial, e o governo na maior cara de pau apresenta números e mais números para esconder o que todos vemos e sentimos. As cotas nas universidades é o resultado dessa desastrosa política educacional. Se o governo colocar o ensino básico como prioridade nacional e conceder cotas de bolsas, para capacitação dos seus professores, a educação brasileira passa a ser competitiva e podemos até em pensar em um Prêmio Nobel. O lamentável é o governo fazer tanta marola e enganação, tentando resolver esse sério problema pelo ápice da pirâmide educacional. Simplicidade e modéstia, gestores oficiais do século XXI! O mundo tem bons exemplos para corrigir essa doença: - Aluno em tempo integral no ensino básico, com escolas dignas e professores qualificados e bem remunerados. Não percamos tempo discutindo o ingresso dos alunos na universidade, enveredando pelo caminho da discussão política e esquecendo-se do seu futuro, que hoje desembocam em vistosos diplomas e festas para comemorar o título de analfabetos funcionais. Diz o ditado popular que o início começa pelo início. Assim é a educação. A boa educação inicia-se pelo início do processo, que é a educação infantil - e oportunidade de estudar para todas as crianças. Quando a lei não é cumprida, enfrentamos o Enem e cotas, para entrarmos no sistema universitário público, que só abriga 30% dos nossos universitários. *GABRIEL NOVIS NEVES é médico e ex-reitor da UFMT