Nos dois artigos anteriores a este, a idéia foi traçar uma retrospectiva das origens sociais da crise de violência atual que encantoam, a sociedade brasileira. Encantoar, no vocabulário mineiro significa acuar. Foi dito que a violência nem vem tanto da miséria, mas do apartheid social que se construiu no Brasil, e ainda hoje se mantém numa conivência cruel da sociedade mais bem posicionada. Os iguais, em geral, repelem seus iguais. Os que ascenderam costumam repelir os que ficaram na escala social. Uma espécie de evolução das espécies. Ou, para a antropologia, o reconhecimento e a demarcação dos territórios por muitas espécies de animais. Para os humanos, essa demarcação acabou na cerca de arame farpado, separando o território de uns para o visível conhecimento de todos. O professor e historiador Tadeu Silva, na carta dos leitores, na edição de ontem deste jornal tratou o assunto com muita competência. Isso não se desmancha do dia para a noite. A segurança deve ser politizada com políticas gerais e abrangentes que alcancem no mais curto prazo possível, algo de no mínimo 10 anos, todas as camadas sociais no país. Claro que as camadas mais pobres terão que ser o alvo principal. O que justifica essa loucura de violência atual, além da perda dos valores nas relações sociais, é a falta de oportunidades, por falta de políticas de inclusão dos mais pobres e dos marginalizados. Um jovem vai preso, sai da cadeia e morre em seguida porque não tem como sobreviver senão à margem da lei. Morre por falta de chances: não teve educação, não teve família, nem saúde, e muito menos, trabalho digno! Então, quando o policial militar sai às ruas e não sabe lidar com os criminosos e não-criminosos, falta-lhe também a mesma educação do seu perseguido. Aí, ele aborda com violência e é mais um igual contra outro igual. Sem políticas muito abrangentes de saneamento social, nada feito. Na Idade Média, durante a peste negra, descobriu-se que era preciso sanear tudo, queimar casas e objetos, mudar pessoas, queimar corpos mortos, tudo de maneira radical para sanear. É o caso agora. Sem um saneamento social não adiantarão tropas e nem armas. É papel dos secretários de segurança pública das gestões atuais, serem muito mais políticos do que gestores. O ex-deputado Carlos Brito, em Mato Grosso, onde os assassinatos fugiram do controle em Cuiabá e em Várzea Grande, deve ser fundamentalmente político, para compreender todas as nuances dos desajustes sociais e econômicos que resultaram na violência. A partir daí, articular-se com o governo inteiro para se criar programas de recuperação social: treinar e buscar motivação para polícias, envolver a educação, estimular a educação técnico-profissional em nível médio e superior, oferecer saúde decente nos bairros, criar-se políticas de emprego, envolver os chamados poderes e, por fim, contar com a sociedade. Há muito que não se tem um secretário de segurança político, com visão política e comprometido politicamente como o atual, Carlos Brito. Repito a tese do ex-comandante da PM, Cel. Sales: a segurança não é mais uma questão da polícia. É da sociedade!. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
[email protected] Há muito tempo não temos um secretário de segurança político, comprometido com o social