Há 14 anos o Brasil ganhava o Plano Real, com o objetivo principal de combate à inflação, após anos de pesadelo inflacionário e vários planos econômicos fracassados. Hoje o fantasma da inflação volta a assustar governo, produtores e trabalhadores. No entanto, este cenário já vem se desenhando e já era esperado com a explosiva composição do expressivo aumento do consumo, sem o correspondente aumento da oferta de bens e serviços, inclusive a nível mundial, e o vigoroso movimento de concentração econômica, via fusão e aquisições de empresas. A desvalorização do dólar em relação a várias moedas e produtos, especialmente as commodities, incentiva, também, o descontrole inflacionário em várias partes do mundo. Nos países que trabalham com metas de inflação, como o nosso país, os aumentos de preços, notadamente dos alimentos, desafiam o cumprimento dessas metas. Assim, o aumento do consumo, aliado a ao aumento de custos de produção, levam a um movimento inflacionário que apenas o aumento da taxa de juros e a inibição ao consumo e incentivo a poupança não conseguirá combater. Nos últimos três anos, o barril de petróleo quase triplicou de preço, o que impacta não só na energia, transportes, mas, também, nos insumos agrícolas. Em nosso país, esses fatores externos influenciaram as taxas apuradas nos últimos meses. Não só pelo aumento de preços de produtos como o trigo, a soja e outros, mas, também, por que o mercado interno concorre com o mercado internacional aquecido. Mas fatores internos tem também participação no aumento recente das taxas inflacionárias, ainda sob controle, mas que preocupam principalmente pelo movimento de alta no mercado de atacado. Vale dizer que a inflação dos produtos básicos (arroz, feijão, pão e outros) é bem maior do que os índices de varejo divulgados, o que torna ainda mais preocupante essa tendência de alta. Um dos fatores é a política fiscal que, nos últimos anos apresentou aumento de gastos do governo bem acima da elevação do PIB. Mesmo batendo recordes de arrecadação, onerando o produtor e inibindo o consumo, esse esforço arrecadatório tem sido desviado para bancar esses gastos públicos. Outro fator relevante é o custo da dívida interna, que hoje ultrapassa R$ 1,3 trilhão, e a taxa vigente de 12,5% ao ano indica um gasto com juros superior a R$ 150 bilhões anuais. A cada aumento da taxa de juros básica de 0,5% temos que pagar R$ 6,5 bilhões de juros por ano. Este instrumento monetário de controle da inflação levou o país a trocar significativos aumentos do PIB como ocorreu nos demais países emergentes e no resto da América Latina por um crescimento modesto nos últimos anos, em nome do controle inflacionário com prática de juros sufocantes. Assim, apesar de tamanho esforço, especialmente da sociedade, em que milhões de empregos deixaram de ser gerados, há que se perguntar: será que a adoção do mesmo remédio será eficaz no combate da inflação que teima em atormentar a sociedade brasileira? Talvez no curto e médio prazos a prática de juros altos apresente sucesso. Entretanto, há que se considerar que enquanto não combatermos as causas estruturais aumentando a oferta de bens e serviços, gerando empregos e promovendo o desenvolvimento sustentado teremos mais alguns anos de preocupação com o fantasma inflacionário. Na economia brasileira, a maioria dos setores produtivos apresentam estruturas econômicas de monopólios e oligopólios além da indesejável prática de cartel. A oferta de bens e serviços está concentrada e tal fato agravou-se nos últimos anos com o movimento de fusões e aquisições de empresas, em nome da eficiência econômica. As políticas públicas bem intencionadas, como a elevação do crédito e financiamento para a construção de imóveis novos, que objetivam especialmente a geração de novos empregos, esbarram na oferta de cimento, aço e outros produtos concentradas em poucos produtores nacionais. Precisamos aprender que não se combate inflação apenas inibindo o consumo e sufocando o setor produtivo. Existem outras soluções. Talvez uma política econômica que incentive a produção, priorize os setores geradores de emprego e renda e a interiorização da atividade econômica seja mais eficaz no combate a inflação e ao desenvolvimento econômico. E isto só será possível com novos produtores e novas empresas, que aumentarão a concorrência e a eficiência econômica que, enfim, será realmente partilhada com o consumidor. E o caminho está no incentivo as micro e pequenas empresas nacionais, apoiando-as para que elas possam se manter no mercado, e, essencialmente, oferecendo tratamento diferenciado para que elas possam efetivamente concorrer com as grandes empresas, gerar milhões de empregos e levar ao interior do país o desenvolvimento econômico e social que tanto perseguimos. Valeria a pena pelo menos tentar essa nova alternativa. * HELIO CAMPAGNUCIO, economista, pós-graduado em finanças, advogado, professor e consultor de empresas
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