ARTIGO
Terça-feira, 16 de Setembro de 2008, 20h:49
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LORENZO FALCÃO
Nós e os apelidos
Os apelidos costumam perseguir a gente. Basta nascermos e eles começam a se enfileirar em torno de nossa existência. Já ouvi dizer e é verdade, que quando a gente não gosta, aí é que eles se estabelecem. Pregam, ou pegam, tanto faz. Quando a gente é adolescente, cheio de dúvidas e espinhas na cabeça e no rosto, é que os apelidos mais incomodam. Eu mesmo, com minha estatura elevada e magreza, quando era adolescente, tinha uma cabeleira que destoava do resto do meu corpo. Assim, me chamavam de espermatozóide, de prego, de força (em alusão à magreza) e até de taquara de panhar mamão. Eu fingia que não me importava. Mas nem sempre adiantava e às vezes o apelido ficava. Já quando quase adulto, lembro-me de um amigo, com o mesmo biótipo que eu, que tentou me apelidar de tuiuiú... Pra quê... O apelido acabou mesmo foi pregando nele. Na infância um apelido pode acabar com a vida de uma criança. Pode até gerar sérios problemas psicológicos e envolver pai, mãe, irmão etc. Um amigo me contou de um caso engraçado que aconteceu numa escola pública, acho que na Várzea Grande. Uma mãe entrou na diretoria da escola p. da vida, reclamando do que haviam feito com seu filho naquela escola. A diretora não estava na sala e ela foi adiantando o expediente e soltando os cachorros contra as outras funcionárias do estabelecimento. A balbúrdia já se formava com o falatório geral de ambas as partes, quando eis que a diretora chega e, meio sem saber a fundo do que se passava, tenta se inteirar, mas de forma infeliz: Mas o que foi que aconteceu...? Foi com o caga-sebo? Bom, caga-sebo é um pequeno pássaro muito comum aqui no cerrado e era também o apelido indesejado do guri, cuja mãe estava ali justamente pra tentar livrar o seu filho da indelicada alcunha. E os cuiabanos apreciam demais essa história de botar apelido nos outros. Sei de uma história (ou seria estória e/ou piada?) de um cara super vergonhoso e feio que visitou Cuiabá e sabia da fama de apelidadeiro que nosso povo tem. O cara ficou hospedado lá no edifício Maria Joaquina, na Praça Alencastro, um dos mais antigos da cidade. E naqueles tempos, final dos anos 60, início dos 70, o programa ideal nesta cidade era passear na Alencastro e se deixar burrifar pelas águas da fonte luminosa. E o forasteiro lá nas grimpas em uma das janelas do prédio, botava a cara pra fora, entrava... E foi repetindo essa movimentação, até que uma bela balzaquiana que passeava pela praça flagrou o sujeito lá em cima: Gente... Vejam, é o cuco!!! LORENZO FALCÃO é editor do Ilustrado do Diário