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Cuiabá MT, Quarta-feira, 17 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 14 de Abril de 2012, 14h:14

PAULO LEITE

Necessidades especiais

Vez por outra, tenho uma crise de gota, um tipo de reumatismo que acomete as articulações e causa muita dor, dificultando a locomoção do enfermo. Meu joelho incha e praticamente trava, limitando meus movimentos e comprometendo minha mobilidade. Este relato é irrelevante, pessoal e prosaico para ser tratado em artigo, e pretensioso ao tentar chamar a atenção do leitor para uma questão comezinha e privada. Mas, por trás deste episódio de repercussão ínfima, a não ser para o meu próprio conforto, desnudou-se para mim um drama vivido cotidianamente por uma parcela significativa da sociedade brasileira: segundo informações do IBGE, 14,5% da população nacional é formada por portadores de deficiências de qualquer natureza. Deste contingente, somando perto dos 30 milhões de pessoas, 27% possui deficiência motora; ou seja, dificuldade para locomoção. As normas e leis sobre acessibilidade evoluíram muito nos últimos anos, mas a funcionalidade deste código ainda é limitada. As barreiras, muitas vezes, são intransponíveis para os portadores de necessidades especiais. Faltam rampas, sarjetas com rebaixamento e sinalização adequada. Pois bem, no sábado, com dificuldade de me movimentar, empreendi uma pequena epopéia: uma viagem de avião de São Paulo a Cuiabá, com escala em Brasília. Trata-se, portanto, de um exercício elitista, em tese com o conforto e a segurança do meio de transporte mais caro e sofisticado do país. Em São Paulo, tudo bem... O aeroporto de Congonhas dispõe de um meio de locomoção para deficientes chamado “ambulift”, na verdade um veículo com uma plataforma elevatória que conduz o passageiro até a altura da porta lateral da aeronave, embarcando-o com conforto e segurança. O aeroporto do Distrito Federal também possui o mesmo equipamento, mas pasmem, não funciona porque a Infraero não consegue treinar um operador para a função. Ou seja, tem os meios adequados, mas não consegue gerenciá-lo, por absoluta falta de estratégia e planejamento. Mas lá a coisa ainda andou satisfatoriamente, pois o terminal é dotado de pontes de embarques (fingers), aqueles tubos que levam o passageiro até ao saguão. Mas, em Cuiabá, a coisa é rústica..., precária e medieval! Aqui, o viajante desce da aeronave no muque. Segurado por funcionários da companhia aérea, como num andor do constrangimento. Constrangimento para quem necessita do auxílio e também para quem o executa. O paciente sente-se ainda mais fragilizado e impotente. É lamentável que um aeroporto do movimento e da importância do nosso, não disponha de um “ambulift” ou equipamentos especiais para atender as pessoas com dificuldade de locomoção... É triste ver que a Infraero tornou-se uma empresa apenas interessada em fomentar o comércio dentro dos terminais, esquecendo-se dos passageiros, principalmente aqueles que precisam de uma atenção redobrada. É mais triste ainda pensar que falamos de forma eloqüente e grandiosa em sediar eventos de magnitude internacional, como a Copa do Mundo, mas somos derrotados diariamente ao prestar assistência básica à nossa própria gente. A Infraero é um caso lamentável de estrutura pública falida no princípio básico de atender com eficiência e dignidade a população. Digno de nota, por outro lado, no meu caso específico, foi o atendimento cordial e gentil dos funcionários da TAM Linhas Aéreas. Mesmo com todos os percalços, eles foram prestativos e amáveis. Mais do que isso, eles foram eficientes. Escrevo este texto em solidariedade àqueles que desafiam, cotidianamente, as barreiras e os entraves de uma nação que é deficiente ao tratar com justiça e respeito os seus portadores de necessidades especiais. * PAULO LEITE é jornalista, publicitário e escritor [email protected]

Edição EDIÇÃO 16964




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