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ARTIGO
Sexta-feira, 05 de Dezembro de 2014, 20h:24

ADEILDO MARTINS DE LUCENA FILHO

Meu bebê e o Hospital Adauto Botelho

Antes de sair de casa, lancei mais um olhar para Maria Fernanda, que completa oito meses de vida. Tão pequena, tão dependente, tão amada! Cuidados são necessários 24 horas por dia. Comida na boca, banho, troca de fraldas, colo, brincadeiras... todos os cuidados são realizados com alegria e prazer. O Natal está próximo. Com certeza a Maria não vai entender o porquê de tanta alegria, tantas luzes piscando e tantas trocas de presentes. Mas estará segura e será muito mimada por todos. É assim, os bebês causam emoções indescritíveis no adulto. Representam o futuro, a esperança. Com um imenso sorriso no rosto fui trabalhar. Cheguei no Hospital Psiquiátrico, aquele que não deveria mais existir, mas mantém ainda muitos doentes mentais institucionalizados e outros internados via ação judicial. Alguns sem que se tenham conhecimento sequer do seu nome. Ao entrar na enfermaria feminina deparei com uma cena triste, mas infelizmente corriqueira. Com expressão desolada, a enfermeira responsável pela unidade tinha um hematoma no olho direito e escoriações pelo corpo. Havia sido agredida por uma paciente. Doce, seu olhar revelava tristeza e resignação. Na enfermaria masculina percebo alguns pacientes com comportamentos diferentes do rotineiro. Agitação, falas desconexas, irritabilidade. Algo estranho estava acontecendo. E não demorou muito para descobrir o que estava errado. Simples, os pacientes não estavam sendo medicados porque muitos medicamentos estão em falta na farmácia do hospital. E não são só os medicamentos de alto custo, mas também os básicos como haloperidol, prometazina, clonazepan, etc. Esses medicamentos são caros? Não! São medicamentos de baixo custo. Então, por não estão disponíveis na farmácia do hospital? Não sei bem ao certo! Certo é que não havia previsão de abastecimento da farmácia. O Hospital Adauto Botelho é o lugar mais deprimente que já vi na minha vida profissional. Em que pesem os esforços de diretores e funcionários para dar um mínimo de dignidade àquele lugar. Mas sem a medicação, não há cuidado que consiga dar dignidade àqueles brasileiros. Quando descompensam das suas doenças, precisam ser contidos para proteção própria e dos outros. Imagine passar o Natal gritando, sem dormir, contido no leito, perdido dentro de sua própria mente! Imagine o Natal dos profissionais de saúde, que impotentes, assistem a todo esse horror! Muitos doentes mentais são totalmente dependentes. A equipe de enfermagem dá comida na boca, dá banho, troca as roupas, faz brincadeiras, leva para passear, toma cuidados para prevenirem acidentes... Todos os cuidados são realizados com dedicação e compromisso. Essas pessoas doentes não representam o futuro, nem esperança. Geram nas pessoas temor e repulsa. Muita gente sequer os reconhece como seres humanos. Volto pra casa. Já não tenho aquele sorriso largo. Olho o meu bebê e não consigo conter o sorriso. Mas uma inquietação agita minha mente. O Natal está chegando. Como vou poder olhar para a minha filha e não sentir remorsos por não ter feito nada para resolver esta situação deplorável? Algo precisa ser feito além de promessas vazias. Mas o que? *ADEILDO MARTINS DE LUCENA FILHO é especialista em Medicina de Família e comunidade. É medico de carreira no Estado e faz visita clínica diariamente no Hospital Adauto Botelho

Edição EDIÇÃO 16967




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