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ARTIGO
Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009, 20h:58

JULIANA SCARDUA

Memórias da pinta

Ao fitar aquele vidrinho de laboratório, nem imaginava que aquela pequena massa amorfa, embebida na solução regada a formol, fosse capaz de despertar tamanho saudosismo e reflexão. Pois é... São coisas simples, ridículas até, que acontecem vez ou outra na vida da gente e levam ao ato de filosofar – filosofia barata, se assim o quiserem taxar. Pois eis que a extração de uma pinta deflagrou tanta análise. Reflexão que chegou à beira da melancolia. Duvida? Acredite! Pois se pra você não era nada, para mim era o meu sinal... Feinha coitada, mas era minha! É, era... Aquele sinal de nascença, que eu cheguei a teimar a esconder na adolescência, agora faz falta. Era um pinta, digamos, protuberante, grandona, sabe. Não era nem preta, nem marrom, nem vermelha. Era um pouco a mistura de todas essas cores, característica que lhe resultou na sentença fatal. “Temos que tirá-la”, declarou, taxativa, a dermatologista. E assim foi feito. Um dia ela poderia evoluir para um câncer de pele, explicou a médica. Diante disso, negligências são totalmente dispensáveis. Ah! Não contei onde era a pinta? Curioso você, hein! Digamos que ela se encontrava há 26 anos ali, numa região localizada entre a parte posterior das coxas e a lombar... Bom, para facilitar de vez: Na nádega mesmo, ou na bunda, para poupar um pouco os eufemismos. Vão-se as pintas, ficam as bundas e as cicatrizes. Fazer o quê, né? A vida tem que seguir, tem que compreender a marcha, ir tocando em frente e blábláblá. Ai, ai. Mas ela faz falta, coitadinha. Bem, sei que você pode não estar entendendo nada dessa conversa de pinta, de dermatologista e tal. “Quem é essa louca a escrever?”. É... Fazer o quê, né?. O exercício de escrever nos submete a isso. Expõe-nos, ao ridículo ou à glória, dependendo da ocasião, do tema, da abordagem e também de quem lê. O fato é que hoje decidi me arriscar nessas poucas linhas ao ridículo. Mas também ouso deixar uma singela reflexão. Numa parábola nada bíblica ou heróica, coloquemos as coisas assim: Aquela pinta era um pouco de mim, um pedacinho que virou lixo hospitalar. “Ai, que dramático!”, você que está lendo pode ironizar. Mas a verdade é pura simples. Aquele pequeno procedimento cirúrgico mudou algo em mim. Se ninguém mergulha no mesmo rio duas vezes, já dizia o velho filósofo, ninguém é o mesmo depois de passar por simples experiências como a que passei. Ora, senão, pare e pense. São esses pequenos detalhes e vivências que nos fazem o que somos, na essência. “O meio forja o homem”. Acredito nessa expressão. Mas também há coisas inatas que nos identifica, sejam elas sinais no corpo, um jeito todo peculiar de olhar, um tique nervoso, seja lá o que for. Portanto, valorizemos cada um desses pedacinhos na colcha de retalhos que formam o EU. Pois são eles, ao final, quem contribuem muito para dizer o que e quem somos – aos outros e, principalmente, a nós mesmos. JULIANA SCARDUA é jornalista

Edição EDIÇÃO 16962




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