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ARTIGO
Sexta-feira, 20 de Março de 2009, 21h:33

LUIZ CESAR DE MORAES

Luíza, a adúltera

Não faz muito tempo escrevi neste espaço um artigo com alguns devaneios a respeito das dúvidas plantadas nas mentes dos que leram Dom Casmurro, esse clássico do grande Machado de Assis, analisado exaustivamente através dos tempos, tanto por especialistas no assunto, quanto por curiosos como eu. Para ser sincero, creio que o meu enfoque muito mais acentuou as dúvidas do que contribuiu com certezas. Talvez por ser um assunto palpitante, que sensibiliza muita gente ligada às artes, o tema teve certa repercussão na cidade. Um amigo jornalista comentou que, por indicação da filha dele, o artigo aquele seria objeto de estudos em sala de aula, pois viera justo no momento em que a turma discutia o estilo romancista. Pois bem, se neste caso persiste eternamente a incerteza quanto à fidelidade conjugal de Capitu, que o autor faz questão de enfatizar no imaginário do leitor, principalmente pelas preocupações fantasiosas e reais de Bentinho, quando o assunto é “O Primo Basílio” o adultério é escancarado. Luíza traiu Jorge, com todas as letras, com Basílio, um seu namorado de infância, que após longos anos retornara do Brasil. A trama se passa na Lisboa do Século XIX, habitada por uma sociedade extremamente conservadora. As diferenças, no entanto, não ficam por aí. A obra de Eça de Queiroz foca sua crítica num lar burguês aparentemente feliz e perfeito, embora com bases falsas e podres. Os costumes da sociedade são criticados de modo contundente pelo autor, que mostra as contradições vividas pela burguesia, que pregava uma coisa e vivia outra. Enquanto Jorge era o marido responsável, que se ausentava de casa seguidas vezes em função do trabalho que exercia, Luíza fazia o gênero de jovem esposa sonhadora e ociosa da sociedade lisboeta, ao passo que Basílio era o conquistador por excelência, cujo charme nenhuma mulher resistia. Era jovem, bonito, aparentava riqueza e imitava um estilo de vida aristocrático, com a preocupação de estar sempre bem vestido e arrumado. Aliás, consciente de que a própria burguesia era quem mais consumia romances, a intenção do autor parece ter sido fazer com que a sociedade se enxergasse na trama e nela encontrasse seus defeitos para assim poder alterar seu comportamento. Pode ser que tenha conseguido atingir seu objetivo de forma parcial. De concreto mesmo, o que sabemos é que a obra fez sucesso, e até hoje figura no rol dos romances mais importantes da literatura portuguesa. LUIZ CESAR DE MORAES é editor de Opinião do Diário

Edição EDIÇÃO 16969




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