A conversa de hoje bem que poderia ser sobre o herói da semana que empresta seu nome ao título acima. Incrível como a imprensa especializada brasileira é preguiçosa quando o assunto é este rapaz. Ele tem de ser o titular da seleção. Já deveria ter sido na Copa da Alemanha. É o verdadeiro centroavante, dos que marcam gols. Artilheiro da atual temporada espanhola e acho que também da passada (um dos 22 leitores vai escrever confirmando ou corrigindo). Poderia ser também sobre o novo baque na economia mundial por conta das hipotecas americanas agora com o auxilio luxuoso do preço do petróleo rumando para os 100 dólares. Mas deixa para a semana que vem porque com o Feriadão nos EUA e em Tóquio esta já foi pro pau. Então vai sobrar para uma incursão etílico-gastronômica-cultural-política, etc. em que me vi envolvido na segunda-feira que passou. Quis o destino me colocar frente a frente com meu amigo Cosme Hainer no centro do Rio de Janeiro. Uma segunda às duas da tarde, com fome e com sede. Primeira parada, Bar Luiz, que os desavisados colocam um do entre os dois substantivos como se fosse do Luiz. Trata-se de um bar fundado em 1835 por imigrantes alemães e que teve, no auge da segunda guerra, de trocar o nome Adolf com o surgimento de pessoa com o mesmo nome na Alemanha. Ou seja, Adolf virou Luiz. Começamos aí e terminamos no Bar Amarelinho citado por Neruda na sua autobiografia, falando de uma das suas passagens pelo Brasil, e onde Celso Furtado bebeu chope com Raul Prebish quando este deixou o Banco Central argentino na década de 50 e estava ensaiando sua ida para a ONU para fundar a Cepal, onde depois vieram a trabalhar no exílio o próprio Celso, Fernando Henrique Cardoso, Conceição Tavares e José Serra. (É desta época o já clássico texto destes dois últimos Além da Estagnação). Antes do Amarelinho, dois pit stop. Um na Confeitaria Colombo, onde beberam há quase dois séculos Gonçalves Dias e Olavo Bilac, e outro na Cavé, onde pontuaram num passado recente Carlos Drummond, Nelson Rodrigues e onde Leonel de Moura Brizola foi direto do aeroporto quando chegou do exílio para comer salgadinhos. Durante um destes deslocamentos de um boteco para outro, Cosme anuncia a necessidade de adquirir um apetrecho eletrônico. Edifício Avenida Central e suas trezentas lojas. Aí não encontramos e nos foi sugerido uma ida ao Saara, o camelódromo da Rua Uruguaiana. Ou seja, o mercado formal se rende ao informal. Fomos lá. Pelas tantas, achando que aquilo me incomodava, meu amigo de aventura desculpa-se pela peregrinação. Disse-lhe gostar de tudo aquilo, conhecer e freqüentar. Namorei o Marxismo, o Keynesianismo, mas minha paixão teórica são os neoclássicos. Gosto de ver o mercado funcionar. Assistimos ao vivo as forças de mercado. A formação do preço feita pelo vendedor diante do comprador. Eles não sabiam o quanto Cosme estava disposto a pagar que é uma variável dependente de quanto ele ganha. Diante do desconhecimento da renda do comprador ele trabalha com a referência do concorrente ou do bem substituto. Depois ele parte para considerar o custo da mercadoria e aí vai. Pena que só tinham dois vendedores, um clássico duopólio (qualquer semelhança com Gol e TAM é proposital, tá?), o que pode levar a um monopólio se os dois tiverem alguma interlocução ou a uma competição se forem distintos. Como é um produto de certa forma sofisticado, deu-se a vitória do vendedor porque tem poucos fabricantes. Marx chamou isso de concentração técnica que pode vir acompanhada da econômica e quase sempre vem. Ou seja, tem de ter grana e conhecimento técnico para produzir (ramos de baixa complexidade, soja e banana, por exemplo, a concentração se dá na comercialização via mecanismo de agiotagem e garantias). Cosme perdeu, não pôde exercer qualquer influência na determinação do preço final. Não comprou o bem, mas foi bom, sobrou mais grana para o chope. Chope do Amarelinho, última parada já no escuro do Rio que pensa, a sua região central. * PAULO RONAN é economista
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