ARTIGO
Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2013, 20h:50
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TEOCLES MACIEL
Lacerdista por um dia
Naquele fim de tarde estávamos na Praça Alencastro, quando tomamos conhecimento da presença em Cuiabá do grande líder da U.D.N. Carlos Lacerda. Não existiam muitas novidades naquela época nesta agarrativa e secular cidade verde e a presença de Lacerda era o mais propalado acontecimento. Conversávamos numa roda de amigos quando então recebemos o convite, de um companheiro obviamente aficionado pela U.D.N, para assistirmos à palestra que o grande líder político faria na sede do Diretório desta histórica agremiação partidária. Na apologia entre o bem e o mal, a UDN representava na nossa concepção o mal, tudo graças às fortes influencias familiares e da massificada propaganda absorvida na nossa juventude. Enfim, o ambiente e tudo mais infundiam na nossa consciência que o bom era o PSD e o ruim, a UDN. Mas, voltando ao convite, então formulado para assistirmos à palestra de Carlos Lacerda, resolvemos aceitá-lo um tanto temeroso, pois existia uma voz que incitava-nos a comparecer à palestra e por outro lado outra que, prudentemente, dizia: cuidado, existem certos riscos de perseguição política, etc. Tudo isto levando-nos a lembrar da nossa primeira incursão à zona do baixo meretrício quando coincidentemente na mesma praça fomos convidados por um amigo para visitar a famosa Zona do Baú. Na oportunidade queríamos aceitar o convite, mas, por outro lado, tínhamos receio por força das coisas trágicas que contavam daquele lugar, dos tiroteios frequentes, de um tal soldado Marcidão, muito violento, e da presença ostensiva e assídua da Guarda Civil que por certo não perdoaria a presença de menores de idade por aquelas bandas. Mas como já tínhamos dado a palavra de que aceitaríamos, ficava feio não honrá-la e fomos na direção daquele histórico bairro movido pelo ímpeto juvenil e concomitantemente pelo medo. A perna tremia, na verdade tremia por inteiro subindo a ladeira da igreja do Rosário quando então entramos numa casa, cujo ambiente era envolto em acentuada penumbra e em fumaça desenhando imagens imprecisas pelo reflexo da tênue iluminação. Daquele lugar apenas guardamos na recordação o talco Ross sobre a penteadeira e o chamamento que ouvíamos vindo de longe do saudoso prefixo sonoro do Repórter Esso, como sempre testemunha ocular da história, que na época tanto enriquecia e nutria de informações a todos os brasileiros. Porém, voltando a falar da visita de Carlos Lacerda a Cuiabá, embora a digressão tenha sido oportuna. Afinal, comparamos o aceite a este convite formulado da mesma forma com o recebido para assistirmos à palestra de Carlos Lacerda. Contudo, mesmo levando-se em consideração os acirrados e radicais ânimos próprios das hostes partidária do passado, o ímpeto juvenil a tudo se sobrepôs. Enfim, fomos então assistir ao grande guerreiro udenista proferir a palestra, e meio receoso e com toda cautela permanecemos no fundo do salão como alunos sem tarefa feita. A reunião foi presidida, caso não nos falhe a memória, pelo então saudoso governador Fernando Correa da Costa. Logo em seguida, Carlos Lacerda começou a falar com aquela retórica admirável que impressionava e enfeitiçava a todos. A palestra foi uma das mais bonitas e eloquentes a que já assistimos. Finalizada aquela memorável reunião, podemos afirmar com convicção plena que caso o grande líder udenista pedisse ao terminar sua alocução para os presentes atearem fogo no Palácio do Governo ou coisa assim, todos fariam obedecendo sem pestanejar. E foi assim que nos tornamos lacerdista por um dia. *TEOCLES MACIEL é ex-deputado estadual