Uma parcela significativa da juventude brasileira está sem rumo, sem sonhos, apenas vivendo o momento presente. Ao perder essa capacidade, os jovens deixam de sonhar com a carreira, com o emprego e com a família. São jovens de 15 a 24 anos que estão adoecendo coletivamente, a maioria expostos à violência e a corrupção de traficantes. São milhares de crianças e adolescentes que trocam a sala de aula por uma mistura de álcool, drogas e programas sexuais. São meninas novas que se engravidam numa idade em que ainda nem terminaram o primeiro grau, e que deixam de sonhar por um futuro melhor. São enfim 4 milhões de jovens desempregados, desesperados, sobrevivendo nas periferias das grandes cidades, abandonados em acampamentos, assentamentos e em outros rincões do país. Segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra a Domicílios (PNAD-2001), a taxa de desemprego aberto para jovens situa-se em torno de 18%, contra 9,4% da média brasileira. Ao mesmo tempo, 17 milhões, isto é, metade dos jovens brasileiros não estuda. Dos que estudam, 43% estão cursando ou completaram o ensino médio e apenas 13% conseguiram alcançar o ensino superior. Dados oficiais do governo e da UNICEF apontam o Brasil como um dos países onde há mais assassinatos de jovens, com relação ao número de habitantes, sendo as vítimas principalmente homens de baixa renda, com idade ao redor de 20 anos. Como bem disse o sociólogo chileno Roberto Banõ, estudioso da juventude e da cultura política, os jovens tanto retratam como respondem à sociedade em que vivem. A discussão sobre o problema da violência juvenil em nosso país não pode ficar apenas em torno da idade penal. Os projetos sociais precisam surtir mais resultados, notadamente, aqueles que busquem ajudar adolescentes e crianças pobres para evitar seu ingresso no crime e na violência. Eu incluo, também, a prática esportiva. O baixo acesso às atividades de esporte, lazer e cultura contribuem para esta triste realidade. Os últimos dados revelam que cerca de 21% dos municípios brasileiros não tinham uma biblioteca pública, 92% não tinham cinema e 24% não contavam com ginásios poliesportivos. Portanto, é na educação dos jovens brasileiros que a situação é mais precária. Estima-se que pelo menos 10 milhões de crianças estão todos os anos virtualmente fora da escola. O colapso da educação coloca o Brasil como campeão de baixa eficiência do ensino na América Latina. A falta de condições sócio-econômicas para permanecer na escola e o ingresso precoce da criança no mercado de trabalho são as principais causas desse alto índice de repetência e evasão escolar. Apesar do esforço do governo federal, a política educacional merece muito mais atenção. Matar a fome é prioridade, mas estudar também é. E é essa imensa parcela da nossa juventude que precisa cobrar ações mais concretas. Ou seja, é preciso um despertar maior da juventude para a política. Os jovens devem estar mais cientes dos acontecimentos políticos não só em Cuiabá, mas em Mato Grosso e no Brasil. Eles não podem ficar ignorados nos programas e projetos administrativos em curso. Despertar é preciso. E para uma reflexão à nossa sociedade, relembro aqui, o poema Despertar é preciso de Vladimir Maiakovski, o maior poeta russo moderno, aquele que mais completamente expressou, nas décadas pós-Revolução de Outubro, os novos e contraditórios conteúdos do tempo e as novas formas que estes demandavam: Na primeira noite eles aproximam-se e colhem uma flor do nosso jardim, E não dizemos nada; Na segunda noite, já não se escondem, Pisam as flores, matam o nosso cão E não dizemos nada; Até que um dia o mais frágil deles Entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a lua E, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta. E porque não dissemos nada, Já não podemos dizer nada. * VICENTE VUOLO é economista, ex-vereador de Cuiabá e assessor parlamentar do Senado Federal
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