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ARTIGO
Terça-feira, 27 de Maio de 2008, 21h:01

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Juventude: de transviada à vitimada

A necessidade de falar sobre a juventude brasileira adveio das importantes considerações expostas por Bárbara Gancia em um dos jornais do país, dia 23 pp. Mais um jovem de classe média foi morto no trânsito. Embriagado, o responsável pelo acidente voltava dessas festas que não têm hora pra acabar. A colunista - depois de dizer que "os jovens, meninas inclusive, bebem demais, comem de menos e voltam para casa em horários impensáveis" - questiona o silêncio geral sobre a produção e venda daquela "garrafinha de 300 ml de vodca adocicada, que é destinada ao consumo de jovens...". Sem aceitar a necessidade do "esquenta" - ato de beber muito, antes das baladas - Gancia pergunta ainda como as marcas de cerveja cooptam "impunemente ídolos da juventude para serem garotos-propaganda de seus produtos". A esses questionamentos, adiciono outros ingredientes. Antes, adianto: de tudo o que "rola" nessas festas, bebida é "café pequeno". Na essência, a resposta central a questionamentos e angústias passa pela lógica movedora do sistema social. Ademais, para obter lucro, indústria e comércio não se importam com idade, sexo e classe de ninguém. Assim, mais do que o uso de bebidas e outras drogas - com trágicas conseqüências -, o tamanho do problema social a ser enfrentado é bem maior do que a imensa dor de familiares - das diferentes classes sociais - debruçados sobre caixões ocupados por jovens. Sem esquecer que sociedades em diferentes épocas e lugares sempre criaram formas de fugir da crueza da realidade, o fato é que esse momento vivido aposta - mais do que em outros tempos - no esvaziamento do sentido do próprio existir. Por isso, acompanhando a velocidade e características da produção industrial, o ser humano nunca se assemelhou tanto com os produtos descartáveis. Na essência, para a lógica do capital - por mais amargo que seja - corpos e mentes de nossos jovens valem tanto quanto as tais garrafinhas descartáveis das "vodcas adocicadas". O processo do esvaziamento do sentido do existir contemporâneo vem de algum tempo. Destaco, para isso, a retirada da essência ideológica de signos políticos, culturais e educacionais que solidificariam a sociedade. Mesmo a indústria do entretenimento nunca produziu tanto lixo sob o aplauso geral. Com base no discurso do "politicamente correto", muitos dos intelectuais medíocres da pós-modernidade, por meio de dissertações e teses, chegam a aprovar esse miserável modo de viver. Irresponsáveis, vêem no lixo cultural formas de diversidade, liberdade de expressão e até de democracia! Logo, às vezes, eles próprios também choram pela morte de seus filhos, perguntando aos céus o porquê daquilo! Um exemplo visível (ou audível) do vazio, do banal e do fugaz contemporâneos são as "músicas" que muitos jovens ouvem em competições de som automotivo. É desolador. A censurada e poética palavra "bosta" - jogada na "Geni" e denunciada em uma das músicas de Chico Buarque, já há quase quatro décadas - tinha sentido diferente de ser em relação à de hoje. A chulice, agora, é total; agride a integridade da inteligência humana. Superior às vítimas objetivas das classes média e alta (no trânsito, drogas e bebidas) está a condenação social subjetiva de pobres. Essa rapaziada só tem ido à luta na abertura da telenovela. O sentido de suas vidas está comprometido na base. Essa morte é difícil de ser vista a olho nu. Por isso, oferta-se a todos muito pão e circo em alto som. Assim, muitos jovens estão mais para a transgressão do que para os transvios da juventude consciente. Não apontam mais, contra os chapadões, seus narizes; só batem a cara no muro! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Doutor em Jornalismo/USP - Professor de Literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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