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ARTIGO
Terça-feira, 09 de Abril de 2013, 20h:18

SIDNEY ROCHA

Isso vale um abraço, companheiro!

Quando deixei Cuiabá naquela manhã, vieram os amigos até o Gran Odara. De alguma forma, aqueles meses haviam marcado a minha compreensão (não das cidades, do espaço urbano, das eleições, das estatísticas, nada disso: mas das pessoas). A vida de roteirista e escritor já me apresentara muitos momentos assim, nos últimos vinte anos, pelo mundo. Contudo, algo novo, ou adormecido, sobretudo poderoso, se processava no meu velho coração sem preparo para despedidas. Quando Keity e Anderson me abraçaram, senti que eu tocava a alma profunda de uma cidade. E o abraço era um rio que nos unia. Naquele instante, Cuiabá se transformou em uma expressão e uma vontade em mim. Como numa experiência zen-budista, senti todos os destinos em Cuiabá serem um só. Uma cidade com urgência de ser feliz. E nada seria difícil nesse panorama, pensei, pois o povo de Cuiabá atinge fácil com sua alegria o coração de quem chega e é por isso que aprendemos a carregar novas esperanças ali. E era o povo de Cuiabá que senti naquele abraço. Eu tinha visto de perto os rostos e as vontades, conversado com pessoas no Pedra 90, no Distrito Industrial, falado com cidadãos sobre muitos assuntos, sobre a matéria inefável dos sonhos também conversei, e vi brilhar no olhar do jovem e do adulto aqueles desejos todos. No meu ofício, entender a linguagem do olhar é o mais importante — me desculpem os sociólogos e os estatísticos se o meio de se chegar à alma do outro ainda é uma boa conversa, de amigo para amigo. Estive perto do cuiabano em momentos de decisões importantes e, distintamente, como não costuma ocorrer noutras cidades, acreditem: o cuiabano é especialista em escolher destinos. Em estabelecer posição. Em firmar propósitos. Não conheço nenhum cuiabano mais-ou-menos. São todos claramente sim ou claramente não. Não conhecem palavras mornas. Nem abraços frouxos. Acho que o cuiabano inventou a pedagogia do abraço. Quando o carro atravessou a ponte e eu já estava na longínqua Várzea Grande, imaginei aqueles rostos. Em breve, muito breve, o futuro estaria à porta. Havia máquinas alardeando o futuro na Miguel Sutil, obras erguendo o futuro em todos os lugares, o Brasil — e daí há pouco o mundo — veria essa Cuiabá do futuro surgir. Esse rugir de possibilidades me alegrava. Durante aqueles meses, eu havia escrito sobre o povo cuiabano todos os dias. O povo cuiabano de todos os dias. E os meus lábios cantarolavam jingles ainda, quando Cuiabá acertou meu coração definitivamente. Eu já era outro. Ela estaria comigo. A saudade é essa substância poderosa, feita de material imune aos raios-x dos aeroportos, por onde me movo, hoje, ainda mais. Gosto da sensação de viajar com minha Cuiabá mágica para todos os lugares. Minha Cuiabá portátil como é portátil um coração. Meus amigos de Cuiabá me ensinaram com um abraço. Nada é mais poderoso que uma cidade que te abraça. Daqui, sob o lusco-fusco do horizonte, te contemplo, Cuiabá. O meu abraço! *SIDNEY ROCHA é escritor, vencedor do Prêmio Jabuti de Literatura

Edição EDIÇÃO 16969




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Tanto faz. Em MT, os políticos não ligam para a obra
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