ARTIGO
Sexta-feira, 04 de Dezembro de 2009, 23h:18
A
A
ANA ROSA FAGUNDES
Ironia do destino
Esta semana saiu na capa dos jornais de Cuiabá a morte de um jovem que roubou uma peça de roupa em uma loja do shopping, foi para o Centro de Ressocialização e morreu. Felipe Campos Duarte era usuário de drogas. Felipe já foi meu pai. Vejam a ironia do destino, esse menino alto, branco de cabelos negros foi meu colega de escola e de teatro na época em que estudávamos no Cefet, a saudosa Escola Técnica. No meu primeiro espetáculo, uma comédia, Felipe foi meu pai. Era um grupo enorme, umas 25 pessoas. Jovens estudantes que se divertiam fazendo teatro, gastando horas do dia nos ensaios, na preparação, montando cenário, figurino, enfim, sendo felizes. Muitas pessoas dessa turma são meus melhores amigos hoje. Notícias do Felipe ouvia raramente. Há uns quatro anos não o via. A última notícia foi justamente quando um amigo me ligou para contar que o Felipe do teatro havia morrido e as causas da morte ainda eram uma dúvida. E vejam a outra ironia. O advogado da família do jovem que morreu ligou na redação do Diário de Cuiabá e quem atendeu a ligação fui eu. Ele contou toda a história. Um jovem que roubou uma muda de roupa foi para o Carumbé e morreu. Só não disse o nome. Eu também não associei os fatos. No mesmo dia, à noite, passei no velório do Felipe, mas não perguntei e nem entrei em detalhes sobre a causa morte. Só sabia que não foi morte natural. Na igreja onde aconteceu o velório - Felipe se converteu, virou evangélico, uma tentativa de deixar o mundo das drogas - uma projeção com imagens do Felipe na parede, e lá, no meio daquelas fotos, vi que ele não deixou pra trás o prazer de fazer teatro, que passou a fazer na igreja. Identifiquei-me à mãe dele, que disse ah, ele dizia que tinha saudade daquele tempo de escola, do teatro.... No outro dia de manhã, para minha surpresa, vejo nas manchetes dos jornais o caso do menino que morreu depois de um suposto espancamento na cadeia. Era o Felipe, meu pai no teatro, com o rosto estampado nos Diários. Vítima de uma morte trágica. O que realmente aconteceu eu não sei, mas tenho certeza de que ele foi vítima. Repito, vítima. Segundo as reportagens, era a primeira vez que ele passava por lá, o advogado da família vai pedir explicações ao governo. Se não for este o caso, de negligência, me entristece outro fato. Ele era dependente químico, fato que a mãe do rapaz admitiu publicamente com a cabeça erguida. Agora, fico pensando nos rumos que a vida dele poderia ter tomado. E se ele tivesse continuado no teatro conosco? E se tivesse desistido? Parei pra pensar no lado positivo de não ter sabido as causas da morte do Felipe antes de despedir dele no velório. A imagem que ficou foi de um rapaz alegre que, em determinado momento, compartilhou do mesmo sonho que eu. ANA ROSA FAGUNDES é repórter