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Cuiabá MT, Sábado, 13 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 03 de Setembro de 2011, 12h:31

AIRTON REIS

Gritos na Galeria

Tarde ensolarada. Grande Cuiabá infestada pela violência urbana em nada pontual. Bairro Jardim das Américas em itinerário criminal. Tiros trocados em espaço comercial. Mortos e feridos. Corpos estendidos. Fuga alucinada. Avenida interditada. Investigação estacionada por greve deflagrada. Segurança Pública no plantão da inoperância de ordem governamental. Prazo vencido da ordem legal. Acorda, Silval Barbosa! Mindinho para a sociedade alarmada. Seu vizinho na ocorrência policial registrada. Pai de todos em medida remendada. Furo bolo em receita alterada. Mata piolho na cabeleira da capital dominada. Agosto ao gosto nada incidental da criminalidade cada vez mais fatal. Agosto no posto político desfigurado em incumbência institucional. Agosto dos arrombamentos e dos assaltos à mão armada. Agosto das bruxas voadoras nas vassouras além de um tufão genuinamente americano. Agosto dos canos apontados com voz de execução. Agosto do sangue derramado no campo minado de uma nação. Agosto no rastro publicado pela imprensa do novo cangaço nacional. Nem cravo e nem rosa. Acorda, Silval Barbosa! Setembro sem Lampião e sem Maria Bonita na cidade catita. Setembro sem Leopoldino Amaral e sem Sávio Brandão. Setembro sem segurança pública estadual e sem força nacional em ação. Setembro de quem foi assassinado em nome da liberdade de imprensa e de expressão. Setembro de quem foi calado em nome da corrupção. Setembro de quem lê jornais, revistas e assiste a noticiários de televisão. Setembro de quem foi sepultado diante de grandiosa e popular comoção. Setembro de quem gritou em mais de uma ocasião. Setembro de quem sentiu mais do que o impacto de um avião. Setembro além do grito às margens do Ipiranga. Setembro além da chuva do caju adocicado e da manga deliciosa. Acorda, Silval Barbosa! Outubro da democracia desvalida. Outubro da cidadania perdida. Outubro das urnas caladas em representação política e social. Outubro de quem venceu para governar. Outubro de quem foi eleito para administrar. Outubro de quem prometeu melhorias mediante o verbo renovar. Outubro de quem está com o queijo e a faca na mão. Outubro de quem sabe fazer valer a hora e a honra garantida numa mesma Constituição. Outubro de quem sabe exercer o dever e estabelecer o direito de uma nação grandiosa. Verso e prosa. Acorda, Silval Barbosa! Novembro da proclamação republicana. Novembro das viaturas acionadas no perímetro urbano. Novembro dos vitimados lembrados além da missa de sétimo dia. Novembro da casa arrumada aquém da periferia. Novembro das cartas endereçadas para mais de um Papai Noel. Novembro das atas registradas por um mesmo lápis, por um mesmo cordel em nada encantado. Novembro dos noventa dias dos gritos silenciados numa galeria deste Estado Federado. “Deus ajuda quem cedo madruga”. Nós, moradores do bairro Jardim das Américas, já acordamos. Acorda, Silval Barbosa! *AIRTON REIS é poeta em Cuiabá [email protected]

Edição EDIÇÃO 16962




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