ROBERTO B. DA SILVA SÁ
Todos os janeiros, de cada ano, apresentam semelhanças. Excetuando as férias para os gozadores de tais, dentre outras, vemos muita chuva, enchentes, cidades inundadas, morros desmoronando, pessoas perdendo objetos e vidas, aumento da dengue, de novos impostos e... filas; muitas filas... As filas já fazem parte de nossas vidas; por isso, às vezes, nem as notamos. São filas de carros e motos no trânsito, nos restaurantes, aeroportos e rodoviárias, nas agências bancárias, em lojas que liquidam produtos encalhados, nas paradas de ônibus, nos prontos-socorros... e até... nos portões de algumas escolas públicas. E é exatamente disso que trato hoje. De todas as filas, essas são as que mais me inquietam. Afinal, de um jeito ou de outro, filas como tais são mensuráveis; ou seja, via de regras, é possível ver o início e o fim das filas. Mais do que isso: é possível saber os porquês de cada uma delas. Todavia, engana-se quem pensa que o final de uma fila por uma vaga numa escola termina na conquista quando é o caso da vaga em si. Na verdade, essa conquista potencialmente tem tudo para ser apenas o ponto de partida de uma longa e árdua caminhada. E por falar em ponto de partida, o deste artigo foi a incidência de filas em algumas escolas públicas de nossa capital, formadas durante a semana anterior. Quem não passou por essas escolas, pode ver, pelos telejornais, a desesperada luta de pais por uma vaga para seus filhos. Muita gente sobreviveu pelo menos por três dias em longas filas, sob o sol de Cuiabá que não é pra qualquer um e chuva, que, quando cai, também não tem dó nem piedade de ninguém. Em uma dessas matérias de TV, o pai de uma menina de seis anos disse convictamente que não se importava com o tempo que fizesse: sol ou chuva não lhe incomodava. Ele estava ali em busca de uma vaga para sua filha cursar a primeira série do básico numa escola de qualidade. Diante da convicção daquele pai, pus-me a pensar em algumas coisas. Primeiro, nos que não foram contemplados com a vaga desejada. Mas como assim? As estatísticas mostram que a grande carência de vagas reside nas creches. Até onde se sabe, nos ensinos básico e fundamental praticamente não há déficit de vagas. Já a carência para o ensino médio é ligeiramente maior, mas não é para tanto. Tanto é verdade que a Secretaria de Educação (Seduc) disse peremptoriamente que havia vagas para todos; assim, pediu que os pais buscassem em seus bairros as escolas existentes. Mas se há vagas, então por que as filas se formam em uma ou outra escola, e não em todas? Aliás, houve escolas a maioria que não vivenciaram o problema das filas. E por que não vivenciaram esse problema? Porque, com raras exceções, elas são o próprio problema. E os pais compreenderam isso bem antes dos responsáveis públicos. Os pais já sabem quais colégios explicitamente são péssimos; por isso, até perigosos para a integridade física de seus filhos. Em sentido contrário, supõem que, pelos menos em algumas unidades, a qualidade do ensino ainda esteja preservada. E qualidade é o que todos querem. Logo, mais do que as filas por uma vaga em determinada unidade escolar, a Seduc deve investigar os porquês de em tantas escolas sobrarem vagas. Para auxiliar na investigação, afirmo que as filas por vagas em alguns colégios e as vagas que sobram em outros podem ser os primeiros indicadores de uma avaliação popular e espontânea sobre cada colégio existente em cada bairro, em cada cidade de MT. Entender tais preferências e recusas é tarefa do Estado. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, dr. em Jornalismo/USP; prof. Literatura/UFMT
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