ARTIGO
Sexta-feira, 28 de Dezembro de 2007, 18h:50
A
A
PAULO ZAVIASKY
Feitiço contra o feiticeiro
Alguns setores do comércio cuiabano são conhecidos pela inteligência artificial que possuem. Imaginam que para ser comerciantes é necessária carteira de habilitação de motorista de trator de esteira. Vou pular detalhes para não melindrar os bons que existem. Abrem uma loja e já se acham donos do mundo com direito a voto na federação do comércio. E na única ilha deste continente sul-americano, Cuiabá flutua ao sabor do deus-me-livre nesse desespero denominado paradoxo. A primeira coisa que o desesperado comerciante calouro faz em Cuiabá é proibir o povo de passar na frente de sua loja ou de estacionar nas proximidades. Por isso, certo jornal de outra região estampou a manchete intitulada Cuiabá burra que deu aquele montão de protestos. Referiu-se o articulista a alguns comerciantes neófitos que representam a mortalidade infantil nesta região. A Junta Comercial daqui denunciou certa vez a mais grave mortalidade infantil que assola o mundo e cujo epicentro está justamente em Cuiabá. Os universos biomédicos e cientistas do mundo inteiro voltaram seus olhos em direção deste Centro Geodésico da América do Sul. A Junta Comercial teve que dar explicações que acalmaram os povos do mundo. Trata-se de firmas comerciais que escancaram até hoje suas portas pelas manhãs cuiabanas de suas heranças misteriosas e as fecham esotericamente à tarde. Nascem pela manhã e morrem antes do anoitecer. Eis o mistério da Fé. Mortalidade infantil por aqui significa a morte de uma empresa antes de completar um dia de nascida. É comum alguém nesta capital comprar um micro pela manhã numa loja de informática e ao retornar à tarde para orientações técnicas, erro de marca ou por algum defeito, dar de cara com uma tinturaria ou lavanderia no lugar onde era a loja de informática. Os comerciantes são hábeis, os daqui são habilíssimos em criar barreiras contra o povo. Justamente aqueles que desejam comprar. Nem o cientista político cacique Strauskoffy, da tribo Bosques Delicados de Viena, da divisa entre Chávez e Morales, sabem explicar tamanho paradoxo comercial cuiabano. Deixam camelôs em frente de suas lojas numa estranha metodologia de empurrar o povo para fora das calçadas e ainda concorrerem com o seu próprio comércio numa democracia fogo no próprio rabo no mínimo interessante. Se não bastasse isso, proíbem os veículos de estacionarem próximos à loja. Aliás, dizendo melhor, não facilitam. Dificultam. Agora, a maior pérola dos comerciantes de Cuiabá e, talvez de todo o continente dos países do terceiro, quarto, quinto e sexto mundos é o tal de sindicato oficial dos comerciantes suicidas da América Latina. Apelidado de SERASA, uma bomba de efeito retardado que sempre explode na cara do próprio comerciante que sustenta aquele sindicato que, ao invés de ser contra o povo apenas, ao contrário é contra, também, os próprios comerciantes que contribuem para alguns, apenas um grupo, gente fina, usufruírem de idas e vindas turísticas tão desnecessárias quanto corais de empresas públicas que deveriam atender o público e desviam suas funções para balés das vagabundagens internas. Se não fosse o tal de Serasa que a Telemat, hoje Brasil Telecom, me envolveu há oito anos, por causa de cem reais de um assinante que usou o número de meu CPF e que eu, por birra, tento até hoje exercer minha cidadania, portanto, sem olhar valores, apenas por indignar-me contra uma empresa que aceitava assinaturas sem documentações normativas, não posso comprar a crédito até hoje e nem emitir cheques, o que, por sinal, me faz um bem danado e uma economia que descobri nessa etapa de minha vida. Azar dos comerciantes. Por culpa deles próprios. Por isso, a compra através da Internet e dos cartões de créditos é um fenômeno irrefreável e incontestável. Se não fosse o sindicato dos comerciantes, um tal de Serasa, as vendas, acreditem, seriam o dobro. Quase todos os seres humanos brasileiros possuem um registro nesse sindicato que é barreira contra os próprios membros. * PAULO ZAVIASKY é jornalista. Está no site 24horasnews e comenta diariamente ao vivo por telefone na Rádio Natureza de Chapada (MT) e emissoras autorizadas