ARTIGO
Segunda-feira, 30 de Abril de 2012, 20h:57
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LORENZO FALCÃO
Fé demais
Takva, o temor de um homem por Deus (2006), um filme que precisa ser visto. Digerido. O grau de indigestão que cada um experimenta depois depende das particularidades pessoais. Cá pra nós, foi uma experiência positiva. Um cinema que acrescenta e encanta. Faz a gente pensar e se (in)acomoda em algum lugarzinho da memória. Não passa batido. Talvez por uma religiosidade demasiado discreta, talvez não culpa minha. O fato é que é estranha essa história de ser temente a Deus. Cair na besteira é questionar esse tal temor ao ser onipresente com pessoas erradas. Claro que sabemos que esse temer a Deus é metafórico. Ou será que não? Nada sei... de nada. No apuro, há sempre um soluço disfarçado de Meu Deus do céu. Sigamos adiante, mas registrado o respeito que deve ser destinado a todas as diferenças que existem entre povos e pessoas, incluindo, logicamente, as doutrinas religiosas, neste mundo onde a maldita intolerância é a grande vilã. O filme que compartilho hoje é uma visão particular de devoção extremada que pode provocar distúrbios comportamentais em qualquer pessoa, que se aprofunde nesse complexo mundo espiritual. Dito isto, pobre Muharrem, personagem central do filme turco/alemão, Takva..., que assisti em dois dias. A primeira metade pra reparar na estética forte do diretor Özer Kiziltan. Bela luz, onde predomina o azul, fotografia sóbria, enredo crescente, atores ótimos e trilha sonora expressiva. Uma história contada com perfeição. O filme exige total atenção. O envolvimento é inevitável. Se o personagem já tinha mostrado todo seu fervor por Alá na primeira parte do filme, na metade seguinte, começa a sentir os efeitos por ter sido guindado a um cargo que lida com as finanças da instituição religiosa e torna-se reverenciado por todos. As benesses monetárias lhe chegam acompanhadas de tentações materiais. Um celular, um carro e até mesmo uma esposa, a bela filha do xeque que o promoveu. Para um homem tão temente a Deus neste caso, Alá, que se desesperava com um simples sonho pecaminoso, a nova situação passa a ser paranóica. Muharrem consegue disfarçar seu drama pessoal perante os personagens, mas, confidencia o tempo inteiro com o espectador. Suas alterações comportamentais revelam-no um homem que entrou em parafuso. Às vezes compadecidos, às vezes curiosos, seguimos acompanhando o inusitado filme. Se comecei a assistir embevecido pela boa técnica do diretor Özer Kiziltan, logo depois, me surpreendi com o suspense eletrizante que se instala. E agora, o que vai acontecer com o pacato sujeito que mal dava conta de administrar suas tentações enquanto era um humilde e fervoroso servo de sua fé? Se quiser conhecer um homem, dê-lhe dinheiro e poder. O filme passa ao largo desse chavão ficcional e mergulha de cabeça na questão existencial de um devoto que não estava preparado para enfrentar, sem medo de viver (e de errar), os prazeres que a matéria que atrai matéria nos propicia. LORENZO FALCÃO é editor do caderno Ilustrado do Diário tyrannusmelancholicus.blogspot.com