ARTIGO
Terça-feira, 11 de Maio de 2010, 20h:52
A
A
RENÊ DIÓZ
Eyjafjallajökull
Muita gente se embananou durante os últimos dias tentando pronunciar o nome do problema que provocou o cancelamento de inúmeros vôos na Europa. Mencionado no noticiário, o vulcão Eyjafjallajökull, com seu maldito trema, engasgou jornalistas adoidado. E a culpa não foi da nuvem de cinzas. Teve apresentador de televisão perplexo dizendo que a bagaça era impronunciável - mistura desengonçada de letras, verdadeira sacanagem que só poderia ter vindo da língua embaralhada do cão - enfatizando o hermetismo pitoresco do idioma islandês. Cá pra mim, esse pessoal se espanta à toa. Se o assunto é língua estranha, quase incompreensível, sem par ou manual de instruções, não carece ir tão longe. Antes das geleiras do Atlântico Norte, no Vale do Rio Cuiabá um falar único se esconde da extinção iminente. O linguajar cuiabano sobrevive na fala de uns poucos desde a imposição em massa, no século passado, da cultura forasteira, que o constrangeu e o fez perder seus traços. Essa história conhecida serve para constatar que, diferente dos islandeses, a ameaça aqui não é geológica, é cultural mesmo; e, para isso, nada melhor que a internet e um pouco de humor. Por isso me animei tanto com o Xaê Xomano (xaexomano.com), blog que reproduz o noticiário convencional com textos cômicos cheios da irreverência cuiabana. Com uma foto da antiga e derrubada Catedral da cidade no alto, o recém lançado blog é uma tradução portuguêscuiabanês dos assuntos mais variados do Brasil e do mundo. Como no último causo do argentino Diego Maradona. Um portal de notícias deu a matéria: Cachorro morde Maradona no rosto. Já o XaeXomano registrou: Catchoro grudô de djeitcho na botchetcha do Maradona! Ladino prá besteira. Memorável também foi quando repercutiu a notícia de afastamento de um assessor do Vaticano envolvido com prostituição gay: Tchá por Deus! Tchegado do Papa é Perobão. Cô telefone grampeado pelos homi da Itália, adjudante do Papa é fragrado caçano homi pá cotchá. Segundo Luiz Lacerda, um dos quatro responsáveis pelo blog (ainda sem patrocínio), a iniciativa nasceu da vontade de se expressar no canal aberto da internet e devido ao esquecimento do linguajar local. Axs sabença forom se perdeno, a identidade foi ficano prá tráxs, comenta. Ele responde na grafia do próprio XaeXomano que, mesmo exigindo paciência e leitura em voz alta para ser compreendido, diz que tem atingido seu objetivo de resgatar um traço ímpar da nossa cultura. O que os povo tem moxstrado prá nóxs é aúfa de saudosixsmo. Axs turma lembra da infância, djuventude, parentada e dum tempo onde o cuiabanêxs tava na boca do povo, num tem?. RENÊ DIÓZ é repórter