ROBERTO B. DA S. SÁ
Se alguém se contenta com a lógica conformista do antes tarde do que nunca, algumas vozes enunciadas de dentro das universidades condenando o Enem são bem-vindas. Dessas, destaco um dos artigos de um colega, veiculado recentemente, no qual a UFMT é ironizada como sendo a universidade sangue bom do momento. A ironia do autor se deve, antes de tudo, pelo fato de a UFMT dentre as federais ter sido a mais procurada pelas pessoas que foram obrigadas a fazer o Enem e, paradoxalmente, a esquecida pela maioria dos forasteiros, termo absurdamente usado por veículos da mídia local para identificar quem não era de Mato Grosso, mas que havia conseguido uma das vagas no processo tipo loteria da sorte que, na essência, é esse fracasso chamado Enem. É óbvio que o Enem exporia esse tipo de problema para quase todos os Estados da região Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Esse exame do tipo nacional é idealizado para privilegiar filhos das elites que estudam nos melhores colégios particulares do país. Tais escolas estão concentradas nas regiões Sul e Sudeste. Assim, muitos conquistariam vagas em diversas universidades fora do eixo Rio-SP, mas não as ocupariam. Esses meninos de berço têm muitas outras oportunidades, inclusive, fora do país. Na época devida de discutir o Enem, esse ponto que nem era central foi exposto por meio de artigos, entrevistas, palestras em colégios do ensino médio e nas ocupações à Reitoria da UFMT. Mas tudo isso foi feito apenas por um grupo pequeno embora valioso de docentes e discentes da Instituição. Quem engrossou as ocupações à Reitoria, principalmente, foram estudantes de escolas públicas e privadas. De minha parte, fui aos dados do Enem/2007 para reforçar essa questão, adiantando que isso ocorreria; afinal, a propalada democracia do processo que envolve o Enem não passa das telas dos computadores. Ali, tudo pode. Fora, praticamente nada é exequível; e a gurizada percebeu isso bem antes de muita gente pós-graduada. Nessa linha de raciocínio, destaquei que a melhor escola pública do país estava na 1.935ª posição e a melhor escola privada de MT encontrava-se praticamente empatada com aquela pública. Logo, o óbvio estava escrito nas estrelas. Quem a elas não quisesse olhar, que visse as estatísticas; isso bastaria para não passarmos por esse constrangimento das vagas abandonadas, feito noiva esquecida no altar. Agora, sabem-se lá quantas chamadas a UFMT terá de fazer até preencher a última das vagas oferecidas. Que bizarro! E no mais, por mais que os mato-grossenses venham a ocupar as vagas desprezadas, algo de incômodo já ficou no ar. Mas é fundamental reforçar que o problema do abandono das vagas conquistadas por pessoas que não moram por aqui ainda é café pequeno. Há coisas piores. Acontece que essa questão é a mais fácil de ser vista e apontada pelos críticos tardios que se esconderam na hora exata; que fugiram da luta; que optaram pelo silêncio na hora em que deveriam estar juntos na reflexão pública e nos atos contrários àquele exame. Um grande prejuízo já há por conta dessa esdrúxula e irresponsável experiência. Assim, esses críticos foram passivos e coniventes com a Reitoria que teve de buscar o prédio da OAB-MT para numa caneta transformar a UFMT em doadora universal de vagas. Tais críticas tardias estão longe de compreender aquele pertinente e perturbador verso de Vandré, no qual é dito que quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Falar qualquer coisa agora sobre o Enem é fazer a crítica óbvia; daquela que só surge porque o leite foi derramado e o cheiro espalhou-se por todos os cantos; logo, é o tipo da situação que qualquer um percebe. Não há nisso sequer a necessidade da prerrogativa de ser um docente do ensino superior. De qualquer forma, engolindo essa abominável postura do antes tarde do que nunca, é preciso reconhecer que nem mesmo a crítica retardatária consegue ser estabelecida pela maioria que continua no silêncio, fingindo que nada lhe diz respeito. Assim, vai permanecendo cada vez mais sem identidade. Tempos pós-modernos! * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ, Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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