Daqui a dois dias haverá consulta interna na Universidade Federal de Mato Grosso para escolher o nome que encabeçará a lista tríplice que será enviada a Brasília para a escolha do reitor dos próximos quatro anos. Será uma eleição difícil, porque a concorrência entre os três nomes está acirrada, e porque o escolhido deverá administrar uma universidade corporativa e sem projeto estratégico. Há três candidatos disputando a eleição: os professores Domingos Tabajara de Oliveira Martins, Maria Lúcia Cavalli Neder e João Pedro Valente. Quando cito projeto estratégico, a idéia está ligada à inserção da universidade dentro da problemática econômica, social e política do estado de Mato Grosso. Nesses 30 anos a UFMT graduou quadro técnicos que contribuíram muito para o desenvolvimento econômico. Mas não se envolveu nas grandes discussões decorrentes desse desenvolvimento, como o crescimento do agronegócio sem orientação científica adequada às características das regiões, ou às questões ambientais decorrentes que hoje estão ameaçando inviabilizar a economia, do mesmo modo que nunca produziu ciência para discussões florestais e, tampouco, da exploração do cerrado, das florestas ou mesmo do Pantanal. Quando muito, algumas dissertações e teses tangenciaram essas questões, mas no âmbito individual de professores. E não é por falta de qualificação de quadros. Segundo dados, a UFMT tem 500 doutores e 400 mestres em atividade. Mas não possuem recursos orçamentários que os possibilitem produzir conhecimentos científicos que são absolutamente indispensáveis a essa primeira geração de colonos e de empresários que abriram o crescimento econômico do estado ao longo desses últimos 35 anos. Assisti trechos dos debates entre os candidatos. Mas, prefiro ater-me ao conteúdo dos artigos de cada um, publicados neste jornal na semana passada. Artigos sempre são peças escritas com cuidado para refletir bem o que pensam os seus autores, e por isso servem como referencial. A análise a seguir baseia-se na observação de uma universidade voltada para si mesma, distante do que se passa fora dos muros dos seus campi. Os artigos dos professores Domingos Tabajara de Oliveira Martins, Maria Lúcia Cavalli Neder fizeram abordagens administrativas voltadas para o espírito interno da universidade. Ficou bem claro que estão submetido a intensas pressões internas do corpo docente e administrativo para a discussões corporativas e de problemas internos da instituição. O artigo do candidato João Pedro Valente foi bem mais consistente na abordagem, na medida em que pareceu enxergar a universidade olhando para fora dos seus muros. O empobrecimento dos debates saltou à vista nesta eleição e o espírito interno continuou centrado no umbigo da instituição, como se ele existisse para si mesma e não fosse estratégica para a construção do pensamento científico, econômico, social, cultural e orientador dos rumos de Mato Grosso. Acusações políticas menores e irrelevantes, distribuição de panfletos apócrifos e outras bobagens indignas da UFMT. Por fim, não se nega a importância da estruturação interna da universidade, mas ela de nada adianta se não for voltada para os interesses da sociedade a quem se aplicam os resultados da ciência e do desenvolvimento resultante. Nas eleições anteriores foi assim e desta vez também. A sociedade reconhece o papel de cada gestão ao seu tempo, mas espera mais da instituição para os anos próximos, muito mais complexos, mais tecnológicos e mais globalizados. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e das revistas RDM e Centro-Oeste
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