Por conta de tantas comemorações, nas últimas semanas de cada ano, refletir não é fácil. É muito corre-corre de pessoas com pacotes e sacolas de presentes. De minha parte, contagio-me pouco com isso tudo. Assim, trato outra vez de um dos assuntos que mais têm me afligido ultimamente: a educação, com destaque à violência nos espaços escolares; e agora literalmente coroada com a morte do Professor Kássio Vinícius Castro Gomes, assassinado, aos 39 anos, pelo estudante de Educação Física Amilton Loyola Caires, de 23 anos, simplesmente por que recebeu uma nota baixa. Como foi noticiado, o crime ocorreu no dia 07 deste mês, no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte. Para o professor Kássio, seu belo horizonte foi ceifado antes do natal cristão. Para sua esposa e filhas, fica dessa estupidez a inominável saudade, que ninguém e/ou nada atenuará. Por conta dessa tragédia, que não é pontual e tampouco localizada, recebi um artigo/tributo (Jacuse: Eu acuso) do Prof. Dr. Igor Pantuzza Wildmann à memória do colega assassinado. Ao final de seu texto, ele diz que Qualquer um de nós pode ser o próximo, por qualquer motivo... A facada ignóbil no professor Kássio dói no peito de todos nós. Que a sua morte não seja em vão. É hora de repensarmos a educação brasileira e abrirmos mão dos modismos e invencionices. A melhor nova cultura de paz que podemos adotar nas escolas e universidades é fazer as pazes com os bons e velhos conceitos de seriedade, responsabilidade, disciplina e estudo de verdade. Antes desse final, o articulista, com base na expressão Jacuse, que é de Émile Zola, elenca situações que acusa como promotoras da violência escolar e da falsa democracia que, em nome do politicamente correto impera nesses ambientes. Destaco: a pedagogia ideologizada, que pretende relativizar tudo e todos, equiparando certo ao errado e vice-versa; os burocratas da educação e suas cartilhas do politicamente correto, que impedem a escola de constar faltas graves no histórico escolar, mesmo de alunos criminosos...; a hipocrisia de exigir professores com mestrado e doutorado, muitos dos quais, no dia a dia, serão pressionados a dar provas bem tranquilas, provas de mentirinha, para adequar a avaliação ao perfil dos alunos; os últimos tantos Ministros da Educação, que em nome de estatísticas hipócritas e interesses privados, permitiram a proliferação de cursos superiores completamente sem condições, frequentados por alunos igualmente sem condições de ali estar; a mercantilização cretina do ensino, a venda de diplomas e títulos sem o mínimo de interesse e de responsabilidade com o conteúdo e formação dos alunos, bem como de suas futuras missões na sociedade; os que aplaudem... e ainda trabalham pela massificação do ensino superior, sem entender que o aluno que ali chega deve ter o mínimo de preparo civilizacional, intelectual, moral, pois estamos chegando ao tempo no qual o aluno terá direito de se tornar médico ou advogado sem sequer saber escrever...; os que agora falam em promover um novo paradigma, uma nova cultura de paz, pois o que se deve promover é a boa e VELHA cultura da vergonha na cara, do respeito às normas, à autoridade e do respeito ao ambiente universitário como um ambiente de busca do conhecimento... Junto com Zola e Wildmann fecho este artigo ciente de que também falei; não quero e não posso ser cúmplice da tragédia que vem imperando na educação. O silêncio da maioria é de dar náusea, pois é sinônimo de conivência. Saudações a todos. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. Prof. de Literatura da UFMT
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