ARTIGO
Sexta-feira, 28 de Janeiro de 2011, 20h:09
A
A
LUIS F. SABÓIA R. FILHO
E o tempo levou (final)
Há no cuiabano aquela dor pela perda do que foi seu e se esvaiu, perdendo assim, no tempo e no espaço, toda uma identificação cultural. Quando transito pela calçada do Prédio do INSS, sou tomado de uma sensação de nostalgia, semelhante ao sentimento nostálgico que Caetano Veloso nos revela em Sampa, quando cruza a Avenida São João com a Ipiranga, ali naquela calçada ficava o Bar Internacional, ponto de encontro de estudantes, moços, velhos, políticos, comerciantes, jornalistas e intelectuais, sendo local marcante para a minha geração na formulação de sonhos e objetivos. Todos conheciam os valores da terra e, para ser sincero não me lembro de uma briga no local, as paixões políticas de udenistas, pesedistas, petebistas, comunistas, corriam frouxas e tudo terminava em uma grande risada entre todos os presentes. O humor cuiabano tem muito a ver com o humor carioca, pois ambos apresentam como característica básica, a brejeirice. Dificilmente um recém-chegado a cidade ficava sem apelido. O cuiabano procurava viver, e deixar os outros viver em paz. Os pais tinham tempo e disposição para acompanhar o crescimento dos filhos, em contrapartida a este comportamento familiar, os filhos se transformavam em pessoas honestas, agradáveis e respeitadores das tradições da terra. Existia pobreza, mas, não tínhamos a miserabilidade que avilta a cidade nos dias atuais, nos lembrando de que o Haiti, África, Baixada Carioca, Bangladesh, fica aqui mesmo em Cuiabá. O poder público foi perdendo, através do tempo, a capacidade de administrar a Capital Mato-grossense, e, pelas mais diversas razões, fica a reboque dos acontecimentos, administrando crises de toda a natureza, prometendo muito e fazendo pouco pelo desenvolvimento da cidade. Outra característica curiosa dos dias atuais, é que somos administrados por autoridades sem prestígio, e sem rosto, cujas carreiras são alavancadas pela capacidade de aceitar o inaceitável e suportar o insuportável por parte dos donos do poder maior. O trânsito ficou caótico, quando vejo a Praça Bispo Dom José, tenho a dimensão exata de como a cidade inchou e foi violentada. Nossas ruas apinhadas de ônibus e outros veículos não suportam esta pretensa modernidade. Cuiabá se tornou presa fácil para os desonestos, aventureiros e audaciosos. Hoje em dia, o que mais existe nesta cidade, são os falsos profetas, falsas polêmicas, políticos e culturais. A cidade cresceu, pouca coisa resistiu. Há, nos seus velhos habitantes, um comportamento de resistência pacífica, de teimosia e de ficar presente, custe o que custar. Modernismo ou o pseudomodernismo, tradições de outras terras não conseguiram fazer o passado cuiabano ser esquecido e desconsiderado. O cuiabano é negro, índio, português, e dessa miscigenação resultou um povo que resistiu bravamente, e com duzentos e noventa anos, criou nesta região do país, uma cultura rica em todos os aspectos da existência humana. Os jovens cuiabanos, foram às ruas na década de 60, para exigir a criação da UFMT, e ela veio, cresceu e frutificou. Assim sendo, a Universidade da Selva não é criação de paulistas, cariocas, gaúchos, mineiros, ou paranaenses. Decididamente a UFMT é criação de cuiabanos. É óbvio que muitos brasileiros de outros quadrantes, vieram somar esforços no desenvolvimento dessa Instituição de Ensino Superior, dando de si o melhor possível para o seu engrandecimento, mas não podermos esquecer que ela é uma criação cuiabana. No fazejamento da UFMT, não podemos esquecer-nos de cuiabanos como: Benedito Pedro de Oliveira, Benedito Figueiredo, Gabriel Novis Neves, Atílio Ourives, Edilson Bezerra, Lenine de Campos Póvoas, Alcedino Pedroso da Silva, Álvaro Duarte Monteiro, Clóvis de Melo, Silva Freire, João Celestino Cardoso, e tantos outros ilustres filhos da terra. Cuiabá modernizou? Sim. Melhorou? Decididamente não. Realmente a cidade cresceu!... E quando é moda ocupar espaço ninguém sede nada a ninguém. Foi-se a generosidade de outros tempos. Viver é algo perigoso, assim falou Guimarães Rosa. Viver em Cuiabá nos tempos de hoje é perigosíssimo. Podemos morrer em qualquer esquina da cidade por um fútil motivo de trânsito. Fazer o que? São os novos tempos. Mas, Cuiabá da minha infância e mocidade não é um simples retrato na parede, e ficará no meu imaginário até os meus últimos momentos existenciais. * LUIS FELIPE SABÓIA RIBEIRO FILHO, Médico Cirurgião na Santa Casa de Cuiabá, Professor Adjunto IV da Clínica Cirúrgica da UFMT, provedor da Sociedade Beneficente da Santa Casa de Misericórdia de Cuiabá