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Cuiabá MT, Sexta-feira, 19 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 30 de Maio de 2009, 12h:51

PAULO LEITE

É golpe...

Pasmem! Mas tem gente boa por aí fazendo cálculos e inventando motivos para justificar a prorrogação, por mais dois anos, dos mandatos eletivos que expiram em 2010. É uma tese absurda. Um verdadeiro atentado contra o bom senso. Muitos parlamentares e alguns governantes se aglutinam em torno desse despautério, simplesmente por temerem o inevitável encontro com as urnas. Adiá-lo, pensam os incautos, seria uma forma de ganhar fôlego para o novo embate eleitoral. É o raciocínio obtuso dos que acham que as noites são eternas; e daqueles que temem a luz, não apenas por seu brilho, mas porque ela revela as sombras, mostra relevos e desnuda intenções ocultas. Quando a claridade da manhã incide sobre a planície, os fantasmas retornam às suas sepulturas e aos sarcófagos da incoerência. A eleição é o alvorecer da democracia. É o amanhecer que devolve as esperanças. Sua transparência reflete sobre as mazelas políticas de uma geração, renovando o sentido ético da nação. Abrir mão do sufrágio, neste momento, seria o mesmo que atirar o país de volta às trevas do golpe. Como disse, certa vez, o estadista britânico Winston Churchill, com todos os seus defeitos, a democracia é o mais perfeito dos regimes políticos. Sem voto, não há pluralidade; sem pluralidade, não há democracia. Conspirar contra as eleições significa cuspir na Constituição, ofendendo o mais sagrado de seus princípios: o da representação popular. Presidente da República, senadores, governadores e deputados não fazem parte de uma casta dominante. Eles são apenas delegados da vontade da maioria e, como tal, devem obediência aos ritos constitucionais. Pretender alterar as regras do jogo, como a prorrogação de mandatos em benefício próprio, é um crime de lesa-pátria, Os autores de tal disparate, estes sim, merecem perder o mandato por falta de decoro parlamentar. São mais nocivos ao país que aquele deputado que construiu um castelo em Minas Gerais, que deveria ser punido por mau gosto. Os propositores desta aberração política são verdadeiros lobos vestidos em pele de cordeiro, prontos para atacar a boa fé do povo... Prorrogar mandatos ou mesmo defender a autorização para a disputa de um terceiro pleito no poder é uma espécie de ‘chavização’ de nosso regime. Isso é coisa para o próprio Hugo Chavez, Evo Morales, Rafael Correa e Álvaro Uribe; não para o presidente do Brasil. Para nós, democracia não é apenas uma palavra jogada ao léu; mas sim uma conquista de toda a sociedade, um sentido de civilização e de respeito aos nossos valores morais. Justiça seja feita ao presidente Lula que, com autoridade cívica, tem rejeitado esse cálice. Pois, no bojo desta taça, oferecida como o doce néctar das conveniências, se esconde um veneno amargo e letal; o veneno da incoerência e da traição ao povo. É chegada a hora, portanto, de se colocar uma pedra sobre esse debate. A simples discussão desse tema faz mal ao Brasil. Cabe a Lula, e a mais ninguém, denunciar esse complô contra a normalidade institucional e política da nação. O presidente da República deve apagar essa fagulha, antes que ela vire fogo e incendeie nosso futuro. Democracia é o exercício cotidiano do respeito às leis e do serviço à vontade da maioria, manifestado por intermédio do voto. Para se mudar as regras vigentes, o Congresso Nacional deveria se auto-dissolver e convocar uma nova Constituinte. Só isso daria legitimidade às mudanças... O resto é golpe! • PAULO LEITE é jornalista e escritor

Edição EDIÇÃO 16966




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