Leniência talvez seja um dos melhores adjetivos que podem ser aplicados ao presidente Lula. Quer dizer brandura, suavidade, doçura, mansidão, segundo a definição do dicionário Aurélio. Mais se aplica o termo mansidão ao se avaliar as atitudes do presidente diante de todas as crises que vem enfrentando nos dois mandatos. Mas a prática do termo leniência quer dizer mesmo inação. Quando estouraram os rumorosos escândalos de 2005, ele negou. Negou e negou todos os seguintes, passando pelos aloprados do dossiê, e agora esbarra no seu irmão mais velho, Vavá, que se enrolou com a ilegalidade e levou enfartado para o hospital o irmão mais sábio da família, conhecido como Frei Chico. De novo, o presidente defende o irmão, mas não desautorizou a Polícia Federal, que levantou as acusações contra o irmão. Porém, o que não está escrito nos relatórios da Polícia Federal e nem na transcrição dos telefonemas gravados, é que o presidente se encalacrou na própria armadilha. Ao autorizar o ministro da Justiça a despachar gravadores para todos os telefones prováveis de algum deslize neste país, ele se esqueceu do próprio telhado de vidro. O irmão Vavá não é iniciante em derrapagens ilegais. Já foi denunciado antes e absolvido pela histórica leniência do irmão Lula. Mas agora todos foram pegos de calça curta, incluindo o presidente. A Polícia Federal tem sido usada como polícia política. Antes, sob o comando do ministro Thomaz Bastos, estava entregue a um fundamentalista do PT responsável, duro, mas culto e com tradição na advocacia. Em seu lugar, o presidente nomeou Tarso Genro, fundamentalista radical da ala velha do PT. Nas suas mãos, a Polícia Federal perdeu a compostura técnica e virou polícia política escancarada. Agora o feitiço virou contra o feiticeiro. O presidente admitiu a prévia inocência de Vavá e avalizou a operação policial. Já não pode mais voltar atrás, sob pena de se desmoralizar diante da polícia que ele mesmo armou para atemorizar adversários e aliados. O país inteiro sabe que na Operação Navalha o objeto foi político para intimidar aliados políticos nordestinos e diminuir o Congresso Nacional, que já voa batendo as asas no chão. Não foi à toa que o escolhido foi o presidente do Senado Federal, aliado de outros aliados potencialmente perigosos. De outro lado, o presidente não poderá agora inocentar e esvaziar as acusações contra o irmão Vavá, porque a ala fundamentalista do próprio PT não admitiria o deslize. Tampouco a Polícia Federal admitirá ser desmoralizada depois do estardalhaço de revistar a casa do irmão presidencial e ver a mídia gastar páginas e páginas de matérias sobre o assunto. Ela também está em julgamento. O presidente tem de fato uma polícia federal política da qual não poderá mais se livrar. Do mesmo modo, não poderá deter o braço armado do Estado comandado pelo aliado Tarso Genro, que pensa e age pela sua e por outras cabeças petistas. O presidente Lula está enrascado e acaba vítima da própria armadilha. É o caso de perguntar: e agora, presidente? * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da revista RDM
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