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ARTIGO
Terça-feira, 14 de Abril de 2009, 20h:28

ROBERTO B. DA S. SÁ

Do vestibular unificado

No dia 25 de março, o ministro da Educação - Fernando Haddad - apresentou projeto que visa a unificar os vestibulares nas universidades federais. Criar-se-ia um novo tipo de exame nacional do ensino médio, substituindo o atual (Enem), que serviria como forma de seleção para essas instituições públicas. O modelo é estadunidense. O site do MEC avisava que a formalização da proposta ocorreria no dia 30. O ministro a entregaria à Associação Nacional dos Dirigentes (reitores) das Instituições Federais de Ensino Superior para que esses viabilizassem discussões (!!!) sobre o tema nas universidades. Na exposição da proposta, Haddad destacou como positivo "o fato de que o aluno não precisaria fazer vários vestibulares, mas apenas um que teria (sic) validade nacional". No entanto, para além de populista e eleitoreira (já posso imaginar como será a propaganda disso), o essencial da proposição foi ligeiramente tocado pelo próprio ministro: a ignorância da maioria dos estudantes no domínio de conteúdos básicos de todos os níveis de ensino. Sobre isso, Haddad disse o que segue: "...O vestibular é fortemente conteudista, mas na maneira de perguntar distorce a realidade do ensino médio. Nós queremos ter um exame nacional que dê conta do conteúdo, mas de forma inteligente, que julgue a capacidade analítica dos estudantes e promova uma mudança na atuação em sala de aula do professor". Belo discurso, mas a ele me contraponho, tentando estabelecer diálogo. É verdade que os vestibulares das públicas são "fortemente conteudistas"; ainda bem! Por isso mesmo não é razoável responsabilizar a "maneira de perguntar" e tampouco dizer que essa "maneira... é que distorce a realidade do ensino..." Parece que distorcida é a leitura do ministro que não acerta quase nenhum pingo nos "is", quando se refere à questão. A realidade está distorcida por fatores que passam longe do vestibular em si. Cito alguns: a) desvalorização do professor. Os salários são humilhantes. Assim, os piores é que estão procurando a profissão; b) violência escolar, advinda, principalmente, da miséria da maioria da população e das alterações de comportamentos sociais, com destaque à perda de limites entre os menores, muitos já perigosos infratores; c) imposição de teorias fugidias (em geral, psicologizantes), em detrimento dos conteúdos. Na verdade do cotidiano, a escola finge que ensina; o aluno finge que aprende. Atualmente, na escola, tudo conspira contra o aprendizado de forma responsável. Nem mesmo a velha tabuada se permite memorizar. Semântica de palavras novas, então... A aprovação automática catalisa a tragédia do ensino. Logo, verdadeiros ignorantes saem - com direito à formatura, em geral, paga por políticos de mau caráter - de qualquer nível do ensino, inclusive do superior, que se incumbe de fechar o círculo da estupidez na educação. Por isso, nenhum tipo de vestibular reverterá o quadro; muito menos o proposto pelo ministro; aliás, bem ao contrário. A proposição do MEC aponta para o reforço do desconhecimento; coroa a ignorância. Na essência, quando se fala em "...forma inteligente, que julgue a capacidade analítica dos estudantes...", desvia-se o foco do caos na educação. Um estudante só consegue analisar algo quando dispõe de instrumentos (conteúdos). Infelizmente, a escola tem sonegado o saber; dentre eles, o mais elementar: um bom ensino de língua materna. Sem isso, não se vai a canto algum. Mais: quando se fala em promover "...mudança na atuação em sala de aula do professor...", nas entrelinhas, aponta-se para o "desencorajamento" do professor que - por respeitar o aluno - ainda insiste em ensinar. Enfim, se a proposta do MEC fosse boa, já estaria condenada na própria exposição; ela retira a autonomia das universidades. É balela dizer que as Instituições poderão optar ou não pela adesão; afinal, todas as propostas às universidades já veem empacotadas e com data vencida. Sair de suas armadilhas é raro. Não acatá-las pressupõe sentir na pele cortes orçamentários. As ameaças são descaradas. Há agentes para isso. É o autoritarismo do governo Lula/PT que tem aprofundado a destruição do ensino. As universidades, depois da ditadura/64, nunca estiveram tão enquadradas; elas estão morrendo feito sapo no pé do boi. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ é Dr. em Jornalismo/USP e Prof. de Literatura da UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16967




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