Jornal verdadeiramente Jornal tem que assegurar espaço ao contraditório, mesmo quando seu conteúdo informativo se apresenta irretocável. Com base neste conceito traço considerações sobre a manchete da edição anterior, Impunidade premia escravidão no norte, de autoria dos colegas Keity Roma e José Medeiros. O Brasil está em transformação, principalmente nas áreas de colonização, onde bem se aplica a denominação Belíndia, cunhada por Edmar Bacha, aos contrastes do nosso país. O Nortão de Mato Grosso, onde vive Sebastião Alves de Almeida, o Chapéu Preto - entre aspas satânico personagem que acorrentava, batia e humilhava peões em sua fazenda Cinco Estrela, em Novo Mundo, é a cara da Belíndia. A nossa Belíndia no Nortão choca graduados servidores públicos com seus polpudos salários, planos de saúde, prerrogativas, autoridade e direito a ponto facultativo, porque lá não há hotéis cinco estrelas para patrões e empregados. A obtusidade da legislação aponta os dedos inquisidores aos colonizadores, mas os afasta do Incra, que mantém famílias em condições ultrajantes em acampamentos, e dos órgãos que desrespeitam a Lei de Responsabilidade Fiscal e não pagam em dia os servidores ou os obrigam a fazer CDC em bancos para receberem seus salários. Chapéu Preto não tem auréola. Tem erros, mas não é escravagista. Contra ele pesa o ranço da casta burocrática que vê o maligno em cada fazendeiro, que utopicamente quer o Brasil campesino, com assentados sob o paternalismo estatal, longe da produção agropecuária em escala. Ele e tantos outros na região de influência da antiga BR-080 agora MT-322, pagam o preço da balbúrdia agrária ditada pelo Incra, tão bem definido pelo procurador Mário Lúcio Avelar como, maior fomentador da indústria do grilo e fraude ao erário. A agente da Comissão Pastoral da Terra, Leonora Bruneto, também é personagem da reportagem. Há muito tempo ouço vozes na imprensa alertando que essa religiosa estaria marcada para morrer. No texto, fala-se até do preço de sua cabeça. No entanto, a única vítima da violência é Chapéu Preto, que em 12 de outubro de 2005, foi baleado no tórax, em sua fazenda. A PM deteve Saul Jeferson do Nascimento, Gleiderson Cristiano Shimeng e Regivaldo Ferreira Pinheiro. Este último segundo a polícia - teria sido reconhecido pelo fazendeiro. Posteriormente foram soltos. Os três são ligados ao movimento sem-terra. Na véspera de viagem de Keity lhe contei sobre o atentado sofrido por Chapéu Preto. Acredito que ela tenha se esquecido desse detalhe, absorta que estava com o que ouviu sobre o bicho mau criado pelo choque da mistura da Bélgica com a Índia no Nortão. EDUARDO GOMES é repórter
[email protected]