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ARTIGO
Quinta-feira, 09 de Abril de 2015, 20h:46

ROBERTO B. DA SILVA SÁ

Das Índias ao Brasil

Reza a história oficial que Portugal chegou ao Brasil desejando chegar às Índias por algum “atalho” no mar. Ventos, correntes marítimas e outros fatores teriam “estragado” a intenção inicial de Cabral. Seja como for, de lá para cá, a Índia e o Brasil, ambos pertencentes ao BRICS, ou seja, aquele grupo de países emergentes, mantém algumas aproximações e muitos distanciamentos. Falar das aproximações e distanciamentos demandaria muito tempo e espaço. Por isso, farei algumas reflexões focalizadas apenas em um episódio bizarro apresentado pela mídia em 18/03 p.p. A bizarrice foi tamanha que o humor recheou cada apresentação televisiva principalmente. Do que estou a falar? Daquela cena em que pais e parentes de estudantes indianos foram flagrados, "escalando" as janelas de uma escola para passar cola aos alunos. Isso ocorreu em Hajipur, uma cidade do Estado de Bihar, no leste da Índia. Em suma, os adultos – muitos dos quais chegando a escalar três andares até encontrar a sala dos estudantes – queriam ajudar seus filhos e parentes durante um exame aplicado aos concluintes do 10º ano do ensino básico, uma espécie de vestibular. Assim que assisti àquilo, pensei: mas não é só na Índia que isso ocorre. Para meu conforto, vi que o site da BBC, em 23 de março, “leu meu pensamento”, e listou seis escândalos de fraudes em provas mundo afora. Só dos EUA, foram listados três. O primeiro referiu-se a uma trapaça nuclear. “...Oficiais da base de Malmstrom, em Montana, enviaram as respostas da prova para os outros colegas por mensagens de texto. O teste buscava verificar o conhecimento sobre a forma de operar mísseis...”. Em Atlanta (Geórgia), mais de 170 professores e diretores foram acusados de ter ajudado os alunos a colar nos exames em 2009. Como? “Apagavam as respostas incorretas e, em alguns casos, alteravam para as corretas”. Tudo porque “os professores recebem pagamentos extras de acordo com o desempenho de seus alunos”. Metas a cumprir! Já em New Hamphshire, "Esportes, Ética e Religião’ era o nome de uma aula que deveriam cursar alguns dos recém-chegados a uma universidade”. Ironicamente, “...64 deles foram suspensos por fraude em um teste em janeiro (2015). Gravadores portáteis operados por controle remoto foram usados para responder as perguntas. Em Cuba, “oito pessoas, incluindo cinco professores, foram acusadas de vender provas de admissão para faculdade. Milhares de estudantes do Ensino Médio em Havana foram obrigados a refazer as provas”. Do outro lado do mundo, “na província chinesa de Shaanxi, 2.440 farmacêuticos foram acusados em outubro passado de fraude em um exame de licença nacional. O ponto eletrônico serviu de suporte para o crime”. O Brasil também foi lembrado, claro, por conta das fraudes no ENEM. O destaque ficou para o vexame de 2009, “...quando o exame teve de ser cancelado depois que a prova foi roubada da gráfica em que estava sendo impressa. O caderno de perguntas foi enviado a um jornal um dia antes da aplicação do teste”. Diante dessa listagem, ínfima perante tanta corrupção no mundo, a diferença que há de um canto a outro é apenas a utilização da tecnologia disponível. Nesse quesito, parece que a Índia, mesmo em relação ao Brasil, tem muito a escalar. Por aqui, a alta tecnologia já é suporte para incontáveis crimes em concursos públicos. Em comum, todas as fraudes têm algum quesito financeiro em jogo, além de um profundo “amor” pelas crias e parentes. Em tempos de tanta competitividade, só a ética é que não sobe pelas paredes; ao contrário. * ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ – doutor jornalismo/USP; prof. literatura/UFMT [email protected]

Edição EDIÇÃO 16969




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