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ARTIGO
Terça-feira, 04 de Setembro de 2012, 21h:08

ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ

Das engenharias e educação

Hoje, dialogarei com algumas vozes que tratam da mesma questão: Engenharia/educação no Brasil. Inicio com Bresser-Pereira – professor universitário e ex-ministro de Sarney e FHC – que faz, em artigo, a seguinte indagação: “onde estão nossos engenheiros?” (Folha de SP: 27/08). No preâmbulo, diz: “Dada a necessidade de investimentos na infraestrutura, o governo Dilma decidiu conceder à iniciativa privada os principais aeroportos, estradas de rodagem e ferrovias.” Depois, vindo de um defensor privatista, surge o inesperado: “Não há garantia de que os serviços (privados) passem agora a ser realizados com mais eficiência. O mais provável é que custarão mais caro, porque as empresas terão condições de transferir aos usuários suas ineficiências e garantir seus lucros”. Na sequência, outra indagação de Bresser: “Por que, então, a presidente tomou essa decisão?” Resposta sua: porque faltam engenheiros no Estado brasileiro. Após discorrer sobre a importância desse profissional à construção do país, afirmou que “A crise da engenharia começou na grande crise financeira da dívida externa dos anos 1980”. Ao final, conclamou: “O Brasil e seu Estado precisam de engenheiros. De muitos. Vamos tratar de formá-los e prestigiá-los”. Concomitantemente, li a matéria “Valor de bolsas de pós-graduação cai 55% em 18 anos”, assinada por Paulo Saldaña, no Estadão de SP, de 27/08. De chofre, é dito: “Um pesquisador de mestrado e doutorado recebe hoje uma bolsa que não chega à metade, em valores corrigidos, dos montantes pagos em 94”. Conforme gráficos criados pela Associação de Pós-graduandos de Engenharia Elétrica da Unicamp, “as bolsas de doutorado, em 94, equivaliam a R$ 4.400. De mestrado, a R$ 2.900. Hoje, as de mestrado e doutorado dos órgãos federais de fomento são de R$ 1.350 e R$ 2.000, respectivamente...”. Na mesma matéria, um depoimento: “o salário base de determinadas áreas da engenharia é de 8,5 salários mínimos (R$ 5.280)”. Logo, as pós-graduações ou ficam preteridas ou – na “melhor” das hipóteses – divididas com o mercado. Assim, também nessa aérea, pensar na docência no ensino superior é opção secundária. Outro detalhe extraído da matéria: “O Brasil formou (em todas as áreas) 47 mil mestres e doutores em 2009, totalizando 176 mil titulados no País. Isso corresponde a 0,07% da população...” A atual demanda já pede a multiplicação desse número por cinco. Nas aéreas dos cursos de engenharia, a situação é mais crítica. Até as federais já carecem de docentes. Há concursos públicos sem candidatos para as vagas. Mesmo assim, mas por conta da falta de engenheiros, cursos de engenharias vêm sendo autorizados em instituições particulares, nem sempre com a garantia de qualidade. A última das vozes que resgato é a de Paulo Metri, conselheiro da Federação Brasileira de Associações de Engenheiros e do Clube de Engenharia, que, no artigo “Garras neoliberais fincadas nos professores” (Correio da Cidadania: 20/08), se opõe a Jorge Gerdau sobre o papel das universidades federais. Para Gerdau, elas devem servir ao mercado. Para Metri, devem ser livres para o exercício do pensamento. No mesmo artigo, Metri tratando da greve das federais, diz não entender os motivos pelos quais a categoria não é tratada com a devida consideração pelo governo. Entrementes, diz ainda que “existem categorias que requerem menos escolaridade e ganham bem mais que os professores”. O pior é saber que tudo – educação e greve das federais – continua nas mãos de ferro do governo Dilma/PT. Maus lençóis! *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - dr. em Jornalismo/USP e prof. de Literatura/UFMT

Edição EDIÇÃO 16967




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