Há um orçamento estimado em R$ 400 milhões para construir um novo estádio de futebol. Será demolida uma estrutura envelhecida e outra moderna será posta em seu lugar. O mérito desse feito - Cuiabá como subsede da Copa do Mundo - é sem dúvida um evento para ser celebrado. Todavia, neste artigo lanço outra reflexão. É no mínimo intrigante como esse arrebatamento quase geral ofusca nossa visão para outras modalidades de desembolsos públicos. Refiro-me a investimentos que também deveriam constar de uma lista de prioridade, no caso em tela, dos investimentos em infra-estrutura sanitária na capital. De modo geral, enquanto obras de entretenimento prenunciam um rápido cronograma de execução, infra-estrutura urbana básica como a coleta e destinação final de dejetos tem sido meras promessas vazias. Somos capturados pela opulência e requinte da engenharia, mas nem fazemos as coisas mais essenciais. A escala de poluição hídrica na capital deveria ser motivo de preocupação, mas tem sido abandonada por sucessivos governos. Apesar dos recursos anunciados, é provável que o estádio fique pronto primeiro do que as tubulações prometidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento. Teme-se que os eventos preparativos da copa do mundo concentrem recursos em construção de estrutura hoteleira, estádio homérico, modais viários, e uma vez mais, não encaminhe soluções inadiáveis como a revitalização de nossos agonizantes rios. O pouco empenho dos poderes públicos para a emblemática questão sanitária de Cuiabá realça para o futuro uma grande contradição do espaço urbano: ilhas urbanas de arquitetura nobre e áreas satélites desprovidas de serviços básicos. Aliás, esse fenômeno tem sido a regra: em qualquer cidade, parte dela é ilegal, desassistida e fétida, e seus desenhos antigeométricos e confusos, são também resultados da má gestão dos órgãos de planejamento. Junto com o investimento do fulgurante estádio deveria se somar recursos para urbanizar dezenas de bairros e dignificar a vida de muitas famílias. Obras sanitárias valorizariam imóveis e fariam a cidade crescer de forma menos desigual, e, sobretudo, impulsionaria setores da construção civil com a criação de postos de trabalho. O receio é que, de todo o investimento injetado na capital, somente resíduos alcancem as periferias aumentando, deste modo, o hiato entre um centro pujante e seus espaços satélites decadentes. A questão de estrutura sanitária - seja por inação política, ou miopia social dos eleitores acena para soluções muito graduais, bem abaixo do crescimento vegetativo da população, e muito aquém da expansão das áreas residenciais. É óbvio que ao efeito deslumbramento da Copa de 2014, devem se seguir projetos e recursos para tornar nossa capital melhor do que é para todos, e não somente para alguns. Critérios sanitários deveriam ser inclusive levados em consideração antes de o País expor suas cidades aos turistas do mundo. Espera-se, portanto, que entre os projetos para Cuiabá, estejam contempladas também obras que zelem de nosso suprimento vital: a água, que a cada dia fica mais ameaçada por uma carga adicional de excrementos. Na realidade, esgotamento sanitário recebe fracos dividendos eleitorais e por outro lado, não tem oferecido atrativos ao capital privado. A intervenção empresarial é movida por lucros e estes são incertos tanto pelos vícios da regulação quanto pela incerteza de que os mais pobres assegurem a remuneração do capital. * PAULO CÉZAR DE SOUZA é gestor governamental e mestre em Economia pela UFMT
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