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ARTIGO
Quarta-feira, 03 de Novembro de 2010, 19h:09

ANSELMO CARVALHO PINTO

Cinema e futebol

O cinema anda em dívida com os craques do futebol. No último final de semana, assisti à cinebiografia de Maradona. Chama-se “A mão de Deus” e é uma canelada de tão ruim. Os atores são canastrões, o roteiro é cambaleante e a direção flerta com a estultice. Quase nada se aproveita. Com muito boa vontade – e eu tenho boa vontade com Maradona -, dá para curtir um pouco das curiosidades de sua vida. Do sucesso de Roberto Carlos vivificando a paixão por Cláudia Villafañe à relação intensa e quase homoafetiva com o agente Guillermo Coppola. Dias atrás, vi “Maradona by Kusturica”, um panfleto tolo em que o cineasta sérvio e o jogador se jactam numa autoglorificação mútua, como se ambos habitassem juntos o olimpo e, por empunharem a mesma bandeira – o socialismo –, fossem a personificação dos oprimidos na guerra contra o imperialismo. Pelé também padeceu no cinema. E não falo de suas atuações como ator (!). Há coisa de cinco anos, Aníbal Massaini dirigiu “Pelé Eterno”, que, à exceção da colagem de belos gols e jogadas idem, é um equívoco. Poucas coisas no cinema foram tão constrangedoras quanto o choro de Pelé sentado ao sofá com sua família - numa cena que cairia bem em algum programa dominical. Quando viu a adaptação de seu “A Estrela Solitária” para o cinema, Ruy Castro ruborizou. E Garrincha, então, deve ter se nauseado no subsolo de Pau Grande. É o suficiente para descrevê-lo. Talvez o cinema tenha dificuldade em dimensionar a grandeza dos gênios da bola. E, talvez por isso mesmo, saia-se melhor quando trata de temas menores, mais singelos. Nas locadoras de Cuiabá, há três exemplos de filmes pequenos, mas primorosos, sobre futebol. Um deles é “O Milagre de Berna”, que conta a história de um garoto em viagem à Suíça para ver a final da Copa de 1954. É o filme que melhor soube reproduzir os lances de uma partida real – neste caso, a final entre Hungria e Alemanha. O outro é “À Procura de Eric”, uma comédia em que Eric Cantona se materializa na vida de um carteiro fanático pelo Manchester United. Atenção para a cena em que os dois dividem um cigarro de maconha enquanto Eric lhe dá conselhos extraídos das frases-feitas do futebol. E por último, “Maldito Futebol Clube”. Retrata um fragmento nada edificante da carreira do mítico Brian Clough, técnico que ganhou notoriedade por levar o minúsculo Notthingham Forest a dois títulos seguidos da Copa dos Campões da Europa, no final dos anos 70. Sua irrefreável vaidade chamou à atenção até mesmo de Mohamed Ali, que foi à televisão revelar contrariedade por saber que no esporte havia alguém cujo ego era tão flamejante quanto o seu. *ANSELMO CARVALHO PINTO é editor-executivo do Diário

Edição EDIÇÃO 16966




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