ARTIGO
Sexta-feira, 12 de Março de 2010, 21h:05
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ANA ROSA FAGUNDES
Chove chuva, chove sem parar
A chuva choveu, o Coxipó encheu e o maxixe rodou... Com tanta água descendo do céu nesse último mês, era impossível passar por sobre as pontes que ligam Cuiabá e Várzea Grande sem diminuir a velocidade do carro para observar bem o Cuiabazão. Parecia que faltava um dedinho para a água chegar ao concreto da ponte e ultrapassar as margens do rio. Lá de casa, de tanto que o rio encheu, passei a enxergá-lo da janela do quinto andar, antes essa cobra sinuosa espelhada ficava escondida, ao longe, atrás de outras edificações e da mata ciliar. Confesso uma sensação de medo ao ver tanta água. Enchente por certo nem passou perto de casa. Outros não tiveram a mesma sorte. Apesar das imagens chocantes vindas de São Paulo, quando vemos as daqui, de cidades como Cáceres, Santo Antônio e da capital também, parece que o caos está chegando cada vez mais perto de você. Diferente do rio que tem o leito maior e, portanto, não derrama tão fácil, os córregos são mais traiçoeiros. Foi realmente estranho passar pelo córrego do Barbado e ver que ele ocupava um espaço que agora não lhe pertence mais, tomando as ruas e entrando sem pedir licença nas casas. Na última grande enchente de Cuiabá eu nem era nascida. Foi em 1974 e deixou 24 mil desabrigados. A força da água derrubou casas e, quando não, invadiu moradias estragando tudo com as águas barrentas. O bairro Novo Terceiro, inclusive, foi criado depois que as águas de 74 destruíram o bairro Terceiro. A barragem de Manso foi construída depois controlando o nível da água aqui em baixo, mas lógico, as intempéries naturais nenhum homem controla absolutamente. A enchente quando vem leva tudo, o colchão, o sofá, a geladeira e até, vejam só, candidatura. Além de todos os prejuízos financeiros e emocionais que a água em demasia pode causar, ela também pode trazer outros tipos de problemas, como no caso de dois tucanos, o governador de São Paulo, José Serra e o prefeito de Cuiabá, Wilson Santos. Os dois querem cadeiras maiores do que as que ocupam hoje, como todo mundo sabe. O primeiro para presidente, o segundo para governador de Mato Grosso. Mas Serra está com a água até no pescoço. São Paulo foi castigado com as chuvas. Do dia 23 de dezembro do ano passado até começo de fevereiro, choveu todos os dias por lá. Isso vai ter um inevitável custo político para ele. Apesar de ser mais providência divina, ou melhor, de São Pedro, a exploração eleitoral das enchentes será uma estratégia dos petistas contra o tucano. Aqui em Cuiabá, a água transbordou só um pouco da bacia, serviu só para deixar os pés de Wilson de molho. Isso pode ou não ser usado como arma política, ora, quem sabe, pois? A ocupação urbana sem planejamento, em áreas de riscos, margens de rios são problemas crônicos em diversas cidades e pela quantidade de água que caiu do céu, é difícil mesmo sair incólume do aguaceiro. Cabe aos governantes planejamento e obras para prevenir nas próximas águas de março, que historicamente fecham o verão, mais desastres. ANA ROSA FAGUNDES é repórter