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ARTIGO
Quarta-feira, 23 de Janeiro de 2013, 21h:14

ANSELMO CARVALHO PINTO

Cassandra da Guerra

Ainda é um mistério para historiadores o motivo pelo qual o Ocidente demorou tanto para se dar conta da ameaça nazista à paz mundial. Willian Shirer e Ian Kershaw, dois dos que melhor esquadrinharam o período, por exemplo, anotaram em seus livros a perplexidade diante de tamanha cegueira e indiferença. Hitler começou sua escalada em direção ao abismo ainda em 1933, quando um arranjo conservador o colocou no cargo de chanceler, dando-lhe poder o suficiente para saciá-lo ao mesmo tempo em que o mantinha tutelado pelo presidente Hindenburg. Com a morte do marechal, um ano depois, Hitler passou a acumular os postos de chanceler e presidente. Poder absoluto, como sempre desejou. As hipóteses para o pouco-caso ocidental são tão variadas quanto incapazes de explicar o fenômeno por completo. Há pedaços de teorias que, juntos, ajudam a formar um quebra-cabeças mais ou menos compreensível. O mundo era antissemita e, portanto, a dor dos judeus não doía tanto. Era improvável que uma nação alquebrada por uma guerra se desse o direito de mergulhar em outra menos de duas décadas depois. A política externa de Hitler dava os mais eloquentes sinais de que almejava a paz, num caso de extremo cinismo diplomático, como se veria mais tarde. Um livro lançado há pouco tempo no Brasil acrescenta mais um tópico a estas “teses”. “No Jardim das Feras”, de Erik Larson, faz um recorte da Alemanha hitlerista entre os anos de 1933 e 1937, período em que o historiador Willian Dodd permaneceu como embaixador americano em Berlin. Sujeito de modos simples – a ponto de ser considerado por desafetos um constrangimento para a política externa americana -, Dodd caiu de paraquedas na Embaixada e jamais foi levado a sério pelo Departamento de Estado. Pelo contrário: era boicotado e ridicularizado. O livro reconstitui o deslumbramento inicial da família Dodd – em especial da filha Martha -, o choque de realidade e a angústia de pressentir o que sobreviria. Dodd fez inúmeros alertas sobre a violência do governo nazista – especialmente após a chamada “Noite das Longas Facas”-, esteve algumas vezes com Roosevelt para tratar do tema, escreveu memorandos, mas foi diplomaticamente ignorado. Do embaixador, esperava-se apenas que contivesse os impulsos sexuais de sua filha, mantivesse o status da Embaixada e, principalmente, interviesse pelos bancos americanos, que temiam o calote. A insistência com que Dodd repisava os abusos nazistas chegou a ser tratada com chacota pelos colegas. Demitido e de volta aos EUA, fez inúmeras palestras com um único tema: o perigo da Alemanha nazista. Recebeu dos colegas o apelido de “Cassandra da Diplomacia”. Morreu em 1940, quando a guerra já não era uma ameaça, mas um fato consumado! ANSELMO CARVALHO PINTO é editor-executivo do Diário

Edição EDIÇÃO 16962




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